Revista da FCSH - 1997
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- O hieróglifico : da imagem à escritaPublication . Lopes, Maria Helena TrindadeDurante muito tempo interroguei-me por que razão a civilização egípcia era, simultaneamente, tão simples e tão atraente para as crianças. Há anos atrás, quando ouvi Arthur Rubinstein falar de Mozart dizendo que ele era demasiado fácil para as crianças e excessivamente difícil para os adultos, julguei encontar, finalmente, a resposta para a minha questão. Para uma criança, em Mozart, como no Egipto, o apelo é o da simplicida de, da naturalidade, do se ns íve l, da "melodiosa cor". Mas o adulto descobre-lhe s as diferentes camadas de sentido e mergulha numa complexidade que parece desvanecer o encanto original. Que me perdoe Mozart a quem continuadamente chamo para o horizonte egípcio, mas assim como ele "acordou" os homens e os deuses com a sua música, também os hieróglifos, os "pequenos de senhos animados" que tocam as crianças, despertaram o mundo e os homens do Egipto antigo.
- Sobre representações linguísticasPublication . Xavier, Maria FranciscaPodi a fazer hoje os mesmos comentários que fiz num artigo publicado no n°.3 da Re vista da Faculdade, em 1989, em que comecei citando um título de Jackendoff (1988) - "Why are they say ing these things ab out us?". Então como agora a incompreensão manifestada por muitos sobre o trabalho desenvol vido em gramática generativa resulta, creio eu, da impossibilidade de acompanhar os avanços teóricos que se têm vindo a processar a um ritmo acelerado. Os sucessivos modelos introduziram uma linguagem sofisticada só compreensível para os que com ela trabalham . Nos últimos anos, poucos meses de afastamento podem ser suficientes para que surjam sérias dificuldades no entendimento de hipóteses teóricas novas. E nós, os que aqui estamos interessados na teoria linguística, é com esforço que seguimos o que vai acontecendo lá fora, dadas as muitas dificuldades que ainda temos nesta extremidade da Europa. Por curiosidade, recordo que, enquanto no início do séc ulo XIII, em Inglaterra, Roger Bacon (Some rset, 1214?-Oxford, 1294) reflectia sobre gramática considerando que "Grammar is substantia lIy the sarne in alI langu ages, even thou gh it may va ry accide nta lIy", aqui, pela mesma altura (1214?) , alguém escrevia o que se julga ser o mais antigo texto em português - a Noticia de Torto - , um relato terrível de acontecimentos violentos: "E ora inista tregua fura - a Veraci- amazaru-li os omeess errnaru- Ii X casaes seu torto al rec ."
- A representação do conhecimento no discurso arqueológico : exemplo de um baixo-relevo mitraicoPublication . Rodrigues, Maria C. MonteiroA teoria do conhecimento desde há muito que chama a atenção para dois mundos distintos da observação dos fenómenos- quer eles se refiram a objectos ou a documentos escritos. Isto significa que antes de se filosofar sobre qualquer objecto ele deve ser escrupulosamente examinado e descrito. Assim, é necessário observar com rigor e descrever com exact idão aquilo a que chamamos conhecimento, "esse peculiar fenómeno da consciência" (Hessen, 1987:25). Fazêrno-lo procurando apreender os traços essenciais do objecto, por meio de uma auto-reflexão sobre o que vimos quando falamos de conhecimento. Este método fenomenológico é distinto do psico lógico. Enquanto o último investiga os processos psíquicos concretos no seu curso regular e a conexão com outros processos, o primeiro aspira a apreender a essê ncia geral no fenómeno concreto (/bidem:26). Desta forma no conhecimento encontram-se frente a frente duas entidades: o Objecto e o Sujeito. O conhecimento apresenta-se. assim. como uma relação entre estes dois elementos, que permanecem eternamente separados um do outro.
- Uma representação da língua : a teoria da argumentação na língua de Anscombre e DucrotPublication . Trigo, HelenaA versão inicial, apelidada "standard" (cf. Ducrot 1990: 81), foi construída a partir da observação do funcionamento de alguns elementos linguísticos, como peu, un peu e mais. Na altura, dois tipos de preocupações caracterizavam o posicionamento teórico dos autores: Primeiro, demarcar-se da tendência para "alargar" a análise lógica ao estudo das línguas naturais, nomeadamente dos conectores. Segundo, opor-se às abordagens "descritivistas", com a sua redução do estudo do sentido ao nível informativo. Terá sido muito provavelmente este segundo objectivo que determinou em grande parte a escolha do nome pelo qual a teoria é conhecida. De facto, a expressão "argumentação na língua" alerta para a existência de uma argumentatividade a nível profundo, ou abstracto, a relacionar com a informatividade.
- A pontuação uma questão de representaçãoPublication . Menéndez, Fernanda MirandaCorria o ano de 1883 quando saiu a lume a Orthographia Philosophica da Lingua Portugueza de Bernardo de Lima e Melo Bacelar. Segundo o seu Autor, "A Orthographia Pliilosophica he humo Collecção de Leis, com que arrazoadamente escrevemos, ou representamos em caractéres aos auzentes os sons, accentos, e adjuntos, que aos prezentes communicão os nossos conceitos." (p. 118) No cômputo dos Adjuntos, inclui Bacelar "os Caractéres, Appontuaçoens, e Sinais Orthographicos" (p. 119). Achei esta breve e concisa definição de pontuação de grande interesse, sobretudo no tocante à sua Iigação ao aspecto da "representação": Melo Bacelar considera que é através da ortografia que se representa "aos auzentes", ou seja, àqueles que se encontram fora do circuito directo de comunicação, "os sons, accentos e adjuntos" com que nos fazemos entender numa situação de conversação. Trata-se, portanto, de uma "forma" que está em substituição de outra, usando para esse fim um conjunto de elementos passíveis de se dotarem de significados diversos.
- Modelos representacionais vs modelos operacionais na escrituralidade notarial médio-latinaPublication . Emiliano, António H. de AlbuquerqueNas comunidades linguísticas modernas estudadas que apresentam uma estratificação social complexa , e na qual vigoram padrões linguísticos que de algum modo condicionam ou regulam o uso linguístico, verifica-se que não existe sempre coincidência entre os juízos que os sujeitos linguísticos são capazes de emitir sobre o uso linguístico e a realidade da produção linguística dos mesmos sujeitos. A distinção entre aquilo que os falantes/escreventes "dizem que dizem ou grafam" (ou "dizem qu e se deve dizer ou escrever" ) e "aquilo que de facto dizem/grafam " é um aspecto a que a emergência da sociolinguística veio dar a devida importância e relevância no contexto dos estudos linguísticos.
- Representação e símbolo na parte pariental paleolíticaPublication . Vieira, A. BrancinhaAo tentarmos compreender o sentido e o nexo das representações artísticas dos homens do Paleolítico superior europeu, somos conduzidos a uma situação paradoxal : dispomos de documentos numerosos e preciosos (mais de trezentos locais-santuários até hoje descobertos, contendo dezenas de milhares de figurações), sobre os quais, contudo, qualquer interpretação é conjectural e qualquer teoria unificadora carece, em última análise, de fundamento e prova. O que está em jogo é a compreensão do que os nossos antepassados aceitavam ser a relação com as origens, o mundo, os animais, a morte, as entidades sobrenaturais e o destino ; ou dito de outro modo, a hermenêutica precária destinada a decifrar os primeiros mitos da humanidade - ou pelo menos os primeiros sistemas míticos dos quais há registo gráfico. Ora, esta s constelações mitológicas desenvol vem-se ao longo de mais de vinte milénios (de correm vinte e dois mil anos entre as orna mentações impostas à "grotte Ch au vet" , datada em cerca de 3 1.000 anos, e à caverna de Gouy), e prolongam-se por uma extensão que vai desde a gruta do Escoural , perto de Évora, até às cavernas Kapova e Ignatiev, nos Urais - ou , se atendermos à componente mobiliária da arte paleolítica do Ocidente, até Malta e outras jazidas arqueológicas da Sibéria central.
- Literatura e BDPublication . Zink, RuiLiteratura - o que é? Podemos dizer que é o conjunto dos textos literários. Mas isto é pouco, embora seja sensato ficar por aqui. Literatura é o conjunto dos textos literários que houve, que há e por haver. A riqueza da literatura, a riqueza da noção de literatura reside antes de mais nesse estado de permanente possibilidade. de permanente inquietação, no facto de não se redu zir a um património convenientemente arquivado. Aliás, o próprio património está em permanente mutação, textos saindo e entrando ao sabor dos tempos e dos gostos, ora expulsos porque caídos em desgraça, ora sendo recuperados, reabilitados. A literatura consiste em textos em que a palavra é o cerne mesmo do trabalho, em que a matéria prima para a construção de um objecto estético é a própria língua que o artista partilha com os seus primeiros interlocutores. Por banda desenhada, ou BD, podemos entender o conjunto dos textos narrativos que interligam, de modo dinâmico, palavras e imagens desenhadas. Os textos de banda desenhada também são conhecidos como "histórias aos quadradinhos" por o quadrado ser, tradicionalmente, a unidade sintáctica mínima em que se decompõe uma página.
- A cera e o selo. A força e a fraqueza de um paradigmaPublication . Soares, Maria Luísa CoutoNos textos filosóficos encontramos com certa frequência o recurso a exemplos, paradigmas, imagens. Algumas vezes apresentam-se como uma espécie de prova, ou como uma evidenciação do que se vem argumentando, outras representam simplesmente um ornamento retórico no discurso, um epílogo de um raciocínio incompleto. A diversidade de modos de ocorrência dos paradigmas, das metáforas apresentadas à guisa de exemplo, pode suscitar algumas questões sobre o que estes representam ou podem vir a representar no discurso filosófico. O paradigma não demonstra nada, mas o seu valor performativo introduz sempre algo de novo, representa uma ideia de uma forma plástica , aberta a uma multiplicação de sentidos possíveis. Precisamente este valor performativo imprevisível e incontrolável.
- Conceitos de representação. A intriga ética : impossibilidade de representação no pensamento filosófico de Emmanuel LévinasPublication . Marcos, Maria LucíliaNum livro dedicado a Paul Ricoeur, Richard Kearney procura elaborar uma concepção de criatividade não reduzida à imaginação, mas que se desenvolve em todos os nossos actos intencionais (percebentes, significantes, práticos). Esse conceito de criatividade compreensiva (estética e prática) é, por ele, designada figuração e deve ultrapassar os dualismos tradicionais do ser e do não-ser , da presença e da ausência, do real e do imaginário , visando uma hermenêutica do possível. Essa hermenêutica teria duas modalidades: ontológica ("o possível como desvelarnento do horizonte finito do nosso mundo vivido - do que é") e escato lógica (trabalhando o "horizonte transcendente do mundo futuro" - do que deve ser). Segundo a metafísica anta-teológica, o que existe verdadeiramente é presença e a criatividade humana concebida como imaginação só pode imitar o que já existe. O que parece criação de novo é, afinal , imagem do que já existe. Daí os simulacros reenviarem a um original.
