Revista da FCSH -1998
URI permanente para esta coleção:
Navegar
Entradas recentes
- TROPICALITÉ - Géographie physique intertropícalePublication . Brito, Raquel Soeiro deO Professor Emérito da Universidade de Paris X (Nanterre) J. DEMANGEOT de há muito que nos habituou a esperar de cada livro seu um trabalho de Mestre,* pelo rigor da investigação, clareza de espírito, elegância de linguagem. A sua mais recente obra, Tropicalité - Géographie Physique Intertropical (340 páginas, 57 quadros, 109 figuras, 48 fotografias), vinda a público em Abril de 1999, sob a égide de Armand Colin, Paris, não só não nos desilude, como reforça os seus créditos. A obra é baseada num profundo conhecimento pessoal de uma (quinzena de regiões tropicais, do Brasil ao Cambodja, passando pela África e pela índia, estudos realizados ao longo de trinta anos. Além de estes estudos de terreno, o Professor DEMANGEOT aceitou um convite da Universidade Federal do Rio de Janeiro e aí leccionou durante dois anos, tempo que lhe permitíu realizar e desenvolver pesquisas da sua especialidade e cujos resultados largamente tem usado nos seus trabalhos. Esta longa experiência pessoal, contudo, não o inibiu de compulsar extensa e actualizadíssima bibUografia internacional - a par, naturalmente com obras antígas, mas de fundo - que totalizaram milhar e meio de trabalhos, embora no livro, por imposições alheias à sua vontade tívessem sido reduzidas a pouco mais de um quinto... Não admira, assim, que o tema agora apresentado, desenvolvido sob um esquema muito lógico e aparentemente simples, seja, simultaneamente, uma obra clássica e original.
- Da vivência do tempo a vivência do espaço: a ogdóade na arte da antiguidade tardiaPublication . Wrench, Licínia Nunes CorreiaNos primeiros séculos do cristianismo, quer consideremos a arquitectura quer as artes decorativas, enconframos testemunhos de representações às quais o número oito está subjacente ou como octôgono ou como dois quadrados secantes ou como forma radial. A unidade de oito elementos manifestada nas formas estará relacionada com o conceito e o simbolismo que os Padres da Igreja atribuíram à ogdóade.' É a partir do número oito que alguns exegetas da Bíblia chegam, por exemplo, ao número 666 da Besta do Apocalipse, usando o designado método dos números triangulares que consiste na adição de todos os algarismos que vão da unidade ao número que se pretende considerar. Assim, o tiiangular de 8 (1-1-2-1-3...) é 36 e o tiiangular de 36 é 666.2 Oufras complicadas aritméticas foram usadas pelos primeiros pensadores cristãos para interpretar muitos dos números referidos no Antigo e no Novo Testamentos, atiibuindo-lhes significados que fundamentam nos próprios textos das Sagradas Escrituras.
- A pintura egípcia - a mensagem do eterno momento presentePublication . Fernandes, SílviaNum mundo onde viver significa mudar a cada instante e criar é apenas mais um verbo para designar mudança, não podemos deixar de ficar fascinados com a durabilidade alcançada pela arte egípcia. Afravés dela somos fransportados para um tempo onde o homem vivia os ritmos da Terra e não procurava, desesperadamente, realizar a sua obra no menor espaço de tempo possível. A espiritualidade, a crença na natureza e a certeza de que os deuses podiam ser a chave para a etemidade, levaram o homem egípcio a constmir uma civilização forte e duradoura que se espelha na arte e na vontade de que esta seja o seu testemunho para todo o sempre. É neste espaço temporal, onde o hoje se confunde com o ontem e com o amanhã, que surge uma arte que ficou gravada no tempo e na História, assim como na pedra. Num tema genérico que fala de tempo, temporalidades e durações foi esta permanência que fez brotar a idéia desta comunicação. Face a um tema tão vasto, que nos levaria a encetar uma longa caminhada, decidimos focar apenas a pintiira egípcia. E por quê a pintura ?
- A ficção electrónica:mudanças e permanênciasPublication . Mourão, José AugustoA mudança, a complexidade e a desordem são aspectos determinantes da natureza e das sociedades humanas dos nossos dias no fim deste século. De resto, a idéia de uma fradição estável é uma ilusão que os anfropólogos há muito desmontaram. Os avanços nas ciências do computador e nas engenharias mecânica e elecfrônica tomaram viável a constmção de sistemas artificiais com uma grande complexidade. Tal permitiu concluir que os sistemas de controlo linear e os projectos hierárquicos pré-programados nem sempre são os mais adequados. Nas questões do texto, nós preferimos a integridade imaginada de um objecto metafísico à versão estável de que dispomos. A insônia dos textualistas é, em grande parte, metafísica. Aquilo que, de facto, mais nos incomoda é a idéia de metamorfose ou de metoikesis (Sloterdijk). Diria que a resistência (metafísica) que se esconde por detrás da recusa do texto elecfrónico se deve unicamente ao mesmo receio que levou Platão a condenar a poesia: a insídia da metamorfose. "Há muitas escalas de mudança na metamorfose de um texto", escreve F. J. Aarseth: voluntárias, usurpadoras, plagiárias e subversivas (como as experiências de J. Cage e de W. Burroughs).
- Valsa lenta, tempo de escrita, tempo de vidaPublication . Zink, RuiNo princípio, porque de um escritor se frata, devia estar o verbo. Lamento dizê-lo, mas no meu caso está a imagem: José Cardoso Pires, vestido casualmente, casacão grosso, cigarro pensativo, pela praia despida. Isto foi, salvo erro, por ocasião do lançamento de Balada da Praia dos Cães, em 1982. Na altura, ainda não era muito um cUchê, esta imagem do escritor, não em Portugal, pelo menos. O escritor solitário, fumegante, maciço, caminhando pelo areai desolado, o horizonte recortado a preto e branco, preto no branco, ao fundo e em fundo. A imagem ainda não estava gasta pelo uso, e Cardoso Pires encamava-a à perfeição. O lobo soUtário, lutando com as palavras, fazendo longos passeios - solitários, pois então - por uma praia invemil. O tempo, a época do ano é aqui fundamental: se fosse no verão, a fotografia seria um fiasco: a roupa inapropriada, e a areia branca estaria decerto pejada de corpos adolescentes, namorando o bronze. A praia só é do escritor quando enfregue a si própria.
- O tempo do silêncio - diálogo da ressurreição de Gil VicentePublication . Palla, Maria JoséVamos tecer algumas considerações sobre o Diálogo da Ressureição de Gil Vicente. Esta peça, certamente a mais curta do autor (316 versos), prolonga o Breve Sumário da História de Deus (1044 versos); as duas em conjunto formam um ciclo completo da Paixão - "o Diálogo fecha este fresco", diz-nos Paul Teyssier2. ^ obra em estudo pertence ao gênero farsa enquanto a História de Deus retira as suas personagens e os seus temas do texto bíblico. Nenhuma peça religiosa de Gil Vicente está tão perto dos mistérios representados na mesma época na Europa, nomeadamente em França. A representação da Ressureição tem uma longa história. O mais antigo texto descrevendo uma Visitado sepulchri provém certamente da Regularis concórdia anglicae nationis monachomm sanctimonaliumque, redigida enfre 965 e 975, que explicita emprestar esta prática à abadia de Fleury.
- Identidade narrativa e síntese do heterogéneoPublication . Marcos, Maria LucíliaA identidade pessoal é trabalhada, em Soi-même comme un autre de Paul Ricoeur, como um conceito de relação, composta por uma forma de conservação no tempo e uma forma mutável irredutível à mesmidade. O "caracter" e a "constância da palavra dada" são os dois modelos estudados - um, como exemplo de recobrimento entre identidade-/
- Um signo do tetramorfo na antiguidade tardia portuguesaPublication . Maciel, Manuel JustinoA História da Arte dá conta de que, desde a Pré-história, o Homem revela a capacidade de fransferir dos objectos que o circundam, por abstracção, idéias significantes que fransforma em símbolos. São referenciais de signos que, muitas vezes, se transformam em atributos de deuses ou de heróis. Esses signos são, por natureza, dinâmicos, adaptando-se às circunstâncias dos lugares e dos tempos em que sobrevivem, exprimindo- -se em continuidade. Uma das situações em que podemos constatar esta realidade é a representação do chamado tetramorfo. A palavra significa quatro formas e o seu ponto de chegada significante, em duração contínua, é constituir- -se como signo, símbolo e atiibuto dos Quatro Evangelhos, de acordo com a interpretação que o primitivo Cristianismo fez dos quatro viventes que rodeiam o Trono de Deus, segundo o discurso do Livro do Apocalipse: Diante do Trono havia ainda como que um mar de vidro, semelhante ao cristal; e no meio e em redor do Trono, quatro viventes cheios de olhos por diante e por detrás. O primeiro era semelhante a um leão; o segundo, a um touro; o terceiro tinha um rosto como que de homem e o quarto era semelhante a uma águia voando
- A percepção do tempo e da história nas profecias assíricasPublication . Caramelo, FranciscoOs Mesopotâmios revelavam um interesse muito grande pelos acontecimentos passados. Esse interesse manifestava-se, designadamente, afravés da recoUia, do registo e da cópia de documentos de reinados e de séculos anteriores, para já não falarmos de textos clássicos que continuavam a ser recebidos^ ao longo de várias gerações. Chegaram até nós as listas cronológicas e genealôgicas, as listas dinásticas e as de epônimos; copiaram-se os textos clássicos, como os mitos cosmogônicos, os textos sapienciais, os hinos e as orações, e oufros; coleccionaram oráculos de adivinhação e oráculos proféticos; nas escolas, os aprendizes da arte do escriba copiavam e utilizavam na sua instmção cartas reais, guardadas nos arquivos do palácio ou do templo; as inscrições reais e o gênero analístico registavam os mais notáveis feitos militares e os actos políticos mais decisivos dos soberanos, manipulando a história de acordo com a ideologia dominante2. Esta devoção pelo passado ia desde o registo de acontecimentos históricos à compilação dos oráculos de adivinhação e proféticos que, embora revelando o futuro, eram agora um testemunho da dialéctica permanente enfre o mundo divino e o terreno, procurando conferir tranquilidade e lógica ao entendimento que o homem mesopotâmico tinha sobre o fluxo do tempo e da história. Finalmente, a recepção e actualização dos textos reügiosos mais importantes, sobretudo os mitos cosmogônicos clássicos, adaptados às teologias locais, estendiam este desejo de compreender o tempo e o devir histórico até às próprias origens e criação.
- A memória dos benefícios em Séneca e no infante das sete partidasPublication . Silva, Manuel Augusto Naia daUm dia, JúUo César sentou-se na sua cadeira de juiz do povo para dirimir uma questão de má vizinhança. Um dos acusados aproxima-se e fixa os olhos no Imperador. Este não o reconhece. Ao dar-se conta do facto, o pobre homem antecipa-se a qualquer pergunta apelando à memória do Divino Júlio. Interpela-o no sentido de ele se recordar de um evento de guerra ocorrido então há alguns anos, num local dos arredores de Sucrão, na Espanha Tarraconense: a chegada a um sítio ermo onde restava apenas a sombra de uma frágil árvore perante a calma da tarde, o cansaço até à exaustão, a sede que a todos consumia, a ajuda de um modesto servidor ao estender ao seu chefe militar um manto para se recuperar do esforço despendido e ao alcançar-lhe a preciosa água com o recurso ao próprio capacete. Como resposta, diz lembrar-se de tudo isto, inclusivamente, da figura do soldado. É - lhe afirmado, então, que só não reconhece o seu antigo soldado na personagem que tem na sua frente, porque o capacete fora desfeito pelas incidências da guerra, e a cara por ele protegida havia de sofrer, mais tarde, a ablação de um dos olhos, numa refrega junto ao rio Munda. Surpreendido pela revelação. César nada mais quis ouvir e mandou o homem em paz, liberto de qualquer acusação, manifestando desta forma o seu agradecimento por um acto já pertencente ao passado.
