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Revista da FCSH -1989

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Foi este o número da Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas subordinado ao tema A Cultura Tradicional. Num período em que as novas tecnologias surgem como a palavra de ordem deste fim de século, o estudo da cultura tradicional poderá parecer um mero trabalho de arqueólogos do saber, mais preocupados com o passado do que com o presente das ciências humanas e sociais. Nada de mais errado. Com efeito, constata-se, nestes últimos anos do século XX, uma reviviscência do interesse por culturas marginalizadas, interesse este que não pode deixar de ser significativo. Se bem que este fenômeno não é de todo em todo propriedade do homem actual, apresenta-se hoje revestido de características próprias. Deste modo, a cultura tradicional revela-se, em certas disciplinas, como uma cultura repleta de ensinamentos merecedores da maior atenção, dado que através deles poder-se-ão encontrar altemativas profundamente "inovadoras"; por seu tumo - e penso nas chamadas culturas orais - o próprio processo de conservação e transmissão do saber, paradoxalmente, está muito mais próximo dos nossos dias do que à primeira vista se possa crer: não serão as memórias electrónicas, como muito bem viu Diego Catalán, espaços dedicados à preservação de um saber efêmero, tal como as memórias humanas o foram, antes da arrogância do saber impresso, quimérica ilusão do conhecimento fixado para todo o sempre? Com os estudos de Abel Barros Baptísta, Maria Teresa Araújo, Ana Firmino, José Joaquim Dias Marques, Ana Maria Amado e o projecto de investigação que nos propõem Ana Maria Pina, Antônio Camões Gouveia e João Carlos Brigola, julgamos contribuir para uma reflexão em tomo deste tema tão palpitante.

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  • Piedade popular. Um repertório bibliográfico, um projecto de investigação
    Publication . Pina, Ana Maria; Gouveia, António Camões; Brigola, João Carlos
    Seja qual for a posição de cada um relativamente à expressão piedade popular, ninguém negará a existência de formas de religiosidade que surgem expontaneamente nas comunidades de fiéis. Exprimem sentimentos pessoais e colectivos nascidos de circunstancialismos diversos e que se objectivam de formas variadas. E, não raro - no caso específico do catohcismo - traduzem em termos "hiunarüzados", porque à medida do homem concreto e situado, o culto perfeito prestado a Deus, pela Igreja, através da liturgia. Isto significa que paralelamente a esta acção sagrada por excelência, manifestação formal de uma unidade de fé e de crença, existem aspectos particularizados desta mesma unidade, quando a relação pessoal de cada um com Deus, se concretiza em acções comunitárias ou com expressão na comimidade. O culto prestado a Deus pela Igreja, enquanto corpo místico, hierárquico, do qual Cristo é a cabeça, conjuga-se, assim, com outras formas culturais nascidas de vivências e conservadas pela tradição.
  • A "queda da alma" na concepção popular de Macau
    Publication . Amaro, Ana Maria
    A mortahdade infantil foi, desde sempre, um dos factores principais da auto-regulação populacional no Império do Meio, Daí, a exphcação, quanto a nós, de que as mais variadas concepções que invadem o domínio do sobrenamral relativamente às doenças das cianças, tenham perdurado entre o povo, encontrando-se ainda, de certo modo, bastante vivas entre os chineses de Macau e também entre muitos euro- -asiáticos de ascendência chinesa, mais ou menos próxima, Um dos acidentes mais vulgares e também dos mais temidos relativamente às crianças é o susto provocado por queda, ou por intervenção de pessoa, coisa ou animal estranho ao seu mundo, ou que, inopinadamente, surja no seu caminho. Em conseqüência do susto a criança perde o apetite, chora sem se perceber porquê, apresenta sintomas de crescente agitação, dá gritos iríesperados e sem causa aparente, padece de insônias e, por fim, sobrevêm-lhe vômitos e diarreia, o pulso enfraquece e toma-se mais rápido, acabando por morrer.
  • Cultura tradicional e meio rural
    Publication . Firmino, Ana
    O deslumbramento causado pelo avanço tecnológico do mundo ocidental reflecte-se não apenas nos países que o produzem mas também noutros, onde se verifica um diferente estádio de desenvolvimento cultural, que têm conhecimento dessa tecnologia através da propaganda e, em particular, dos programas de auxílio ao Terceiro Mundo. Apesar dos insistentes avisos de Schumacher (1980), nos finais dos anos 60, em prol duma "tecnologia apropriada", que anos mais tarde McRobie (1981) provou ser possível, eficiente e mais adequada aos problemas dos povos a quem se dirige, a maioria dos países continua dividida entre os "profetas do 'avanço' e os arautos da 'tradição'" (Sérgio, 1974). Entre as excepções conta-se a China, que "apenas adoptou as tecnologias que podia financiar, dominar e produzir de forma a responder à procura da produção agrícola" (Luu, 1979).
  • Romances tradicionais do concelho de Loures
    Publication . Marques, J.J. Dias
    Nos últimos meses de 1823 ou em Janeiro de 1824, uma jovem de Lisboa de quem, infelizmente, não conhecemos o nome, amiga de Ahneida Garrett, recolheu (a pedido do escritor, então exilado em Inglaterra) cerca de quinze versões de romances "\ Esta recolha (á primeira, sublinhe-se, a ser feita da Tradição oral moderna, não só portuguesa, mas pan-ibérica) teve como informantes "amas secas e lavadeiras e saloias velhas" ^\ A segunda e a terceira das categorias indicadas mostram claramente que parte das informantes ouvidas eram naturais da região saloia.
  • Alguns símbolos da tradição: a "Donzela Guerreira"e outros discursos paralelos
    Publication . Araújo, Maria Teresa
    Proceder a uma análise comparativa da simbologia de um texto tradicional, de contos populares e de algumas evocações míticas, coloca, antes de mais, o problema da legitimidade da relação entre estes vários corpus. Sobre o parentesco do mito e do conto popular, muitos estudos pluridisciplinares se fizeram ao longo deste século. Todos eles são coincidentes ao reconhecerem o mito e o conto como formas de convívio com o sobrenatural, formas cujo conteúdo arquetípico é muito semelhante. Freud e Jung consideram-nos um produto do diálogo desse inconsciente consigo mesmo e connosco, embora os seus conceitos de inconsciente se distigam. Mas serão, mito e conto, uma e a mesma coisa? Nas sociedades primitivas, onde é difícil separar o sagrado do profano, eles coexistiram ao ponto de alguns emólogos falarem de "contos-mitos" com funções mágico-religiosas
  • A experiência da morena nos braços de Frei João
    Publication . Baptista, Abel Barros
    O que pode ensinar, hoje, a experiência da Morena nos braços de Frei João? Esta pergimta, naturalmente retórica, vai procurar resposta no presente trabalho, desdobrando-se em dois planos, ou, talvez, referindose apenas a duas preocupações distintas. Por um lado, a pergunta questiona o interesse do romance tradicional enquanto objecto de reflexão para a teoria hterária, isto é, trata-se de saber até que ponto o caso de envolvimento adúltero da Morena (que também é Serena, ou Mariana, ou Marflia, ou Mariquitas, ou Mariquinhas, ou simplesmente Maria, numa variação onomástica a que valerá a pena atribuir um significado), narrado em dezenas de versões mais ou menos semelhantes, se pode mostrar interessante e eventualmente exemplar no exterior das disciphnas que, por imposição institucional ou pura vocação disciplinar, se encarregam de manifestações discursivas em estado de decadência ou já plenamente desaparecidas; por outro lado, o presente trabalho vai averiguar em que medida o romance tradicional aqui estudado conta a experiência da Morena nos braços de Frei João para, através dela, ensinar qualquer coisa aos seus auditores, isto é, trata-se de saber em que medida a história nele narrada apresenta alguma exemplaridade.
  • Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
    Publication . Varios
    Resumo de actividades cienticas dos departamentos da FCSH
  • Doutoramento "honoris causa" Gilbert Durand
    Publication . Barbosa, João Morais
    «Formado pela agregação em Filosofia (...) e ainda mais pela guerra e pelo seu pragmatismo»: assim se apresenta a si próprio Gilbert Durand no seu «curricuium vitae». Palavras que poderão soar como artifício puramente «poético», ou pelo menos «literário», a quem se ficar por elas; a quem não as integrar no discurso científico de um homem para o qual todo o reducionismo é insensato, e que, por isso mesmo, se mostra saudavelmente incapaz de divorciar a racionalidade (da filosofia) e a sensibilidade dorida (da guerra); a quem, afinal, o não entenda, e assim se desentenda de um dos mais brilhantes espíritos do nosso Século.
  • Uma faculdade à prucura de uma universidade
    Publication . Barbosa, João Morais
    Quando, em Janeiro de 1987, pouco depois de pela primeira vez haver sido eleito para as funções de Presidente do Conselho Científico, apresentei o meu projecto de «Programa de Actividade» (aprovado pelo plenário nesse mesmo mês), tinha perfeita consciência da dificuldade de pô-lo integralmente em prática. Em 1 de Julho, distribuí pelos Colegas o «Relatório Semestral do Presidente do Conselho Científico»; nos finais de 1987, fui reeleito para o cargo, no qual me mantenho por força da interpretação dada pela Reitoria ao n.° 2 do Art.° 33.° da «Lei de Autonomia das Universidades».
  • A leitura nos debates da história cultural
    Publication . Lisboa, João Luis
    Em Julho de 87, numa das mais polêmicas intervenções do Congresso Internacional da SIEDS, Furio Diaz afirmava, em mesa redonda, achar muito produtivo o que tem sido feito sobre a história da leitura, embora pessoalmente continuasse mais interessado na «Grande História». Estava então em causa o apuramento das condições de existência das casas editoras, o seu interesse pelos sucessos comerciais hoje esquecidos, ou pela edição mutilada de obras de impacto, as suas estratégias, as suas margens de lucro, os gostos do público leitor setecentista. Uma noção como a de «Grande História» (pressupondo a preferência do estudo da obra de Raynal e Rousseau ao das simplificadas reproduções «piratas» que os vulgarizaram no séc. XVIII) não podia deixar de provocar reacções imediatas. Mas outras perguntas se justificam: o que é, então, a história da leitura, e qual a importância de um debate destes, num congresso como o realizado pela Sociedade Internacional para o Estudo do Século XVIII?