Revista da FCSH - 1980
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Quando em Fevereiro deste ano se fez a apresentação do
número 2 da Revista, no seu relançamento, estabeleceram-se
duas linhas de projecto editorial. Desejava-se uma prática de
pluridisciplinaridade através de números temáticos e fazia-se
um apelo para que viessem a ser publicados textos, documentos
e depoimentos sobre o repensar da Universidade e do
Ensino em Portugal.
Com a presente edição julgamos ter começado a concretizar
o que nos propúnhamos.
Iniciamos este niimero com uma entrevista, concedida
por VITORINO MAGALHÃES GODINHO que nos dá uma
uma problematização situada das Ciências Sociais e Humanas
e que antecede um conjunto de artigos sobre múltiplas questões
epistemológicas a que se aliam reflexões sobre diversificados
que-fazeres científicos, pedagógicos e didácticos.
No que concerne aos problemas da Universidade institui-se
a partir de agora uma secção própria que deverá conduzir a
um debate, necessário e urgente, no momento em que, aprovados
os Estatutos da U. N. L., e de outras Universidades,
importa dar corpo a um efectivo projecto de Autonomia.
O DIRECTOR DA REVISTA
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Entradas recentes
- Perspectiva de análise : ode to eveningPublication . Santos, Anabela Carrola dos
- Reflexões sobre...Publication . Marques, Maria Emília R.Em quase todas as nossas casas há um dicionário. Comprou-se, em geral, pedindo um bom dicionário. Mas que é um dicionário bom ou de confiança? Na livraria, entregam-nos um, feito quase sempre sobre outros, os que o precederam em momento de edição. E sem pensar nisso, sem pensar, ainda, na imensa falta de estudos portugueses quer lexicológícos, quer lexicográficos, tem-se uma confiança espontânea, quase ilimitada, no utensílio que se adquiriu e que, tantas vezes, é de utilização freqüente. Sem pensar também que o autor poderia ter usado para a elaboração da SUA obra fontes lexicográficas diacronicamente díspares.
- Normalização poder e saber : a genealogia dos nossos diasPublication . Marques, AntónioQuando os historiadores das ciências ou das idéias nos propõem, nas suas interpretações, mudanças mais ou menos súbitas dos parâmetros epístemológícos, novas orientações no modo de dispor de determinados métodos, ou, quando do ponto de vista dum espírito científico, mais novo e racional, nos é apresentada a série de ingenuídades e de obstáculos epístemológícos, sugerem-nos desse modo, simultaneamente, uma história da razão e do sujeito da ciência. Forçosamente, tal história possuirá uma natureza cumulativa, centralizadora e incluirá supostos filosóficos e ideológicos de vária ordem, com traços particulares. Geralmente trata-se de uma história teleolôgica, desenvolvendo-se segundo uma determinada lógica e realizando uma finalidade. Foi com Hegel que toda a tradição racionalista ocidental, assumiu plenamente esse modelo de devir, ao qual, sem dúvida, o homem da ciência ocidental vai buscar a sua imagem.
- Para uma antropologia diferentePublication . Lima, MesquitelaQuando no ano lectivo de 1975/76, começámos, num dos cursos de apôs-graduação, o ensino de Antropologia Cultural na Universidade Nova de Lisboa, muitos dos alunos ficaram deveras surpreendidos com o nosso estilo de linguagem e, particularmente, com a natureza das analogias de tipo transdisciplinar que empregávamos para explicar determinados fenômenos ou factos sociais e culturais. Era corrente, durante as sessões de trabalho, referirmo-nos a expressões ou noções de Etologia, da Biologia moderna, da Termodinâmica, da Física e da Química Modernas, da Cibernética, das Matemáticas modernas, tais como os cálculos integral, matricial e dístribucíonal, teoria dos números, etc, da mecânica estatística e da quântica, da teoria e da dinâmica dos sistemas, da Psicologia das condutas ou dos comportamentos, enfim, quase que tocávamos todas as ciências e muita gente pensou que marginalizávamos o ramo da nossa especialidade.
- Um jogo africano de Macau : A choncaPublication . Amaro, Ana MariaO jogo é, sem dúvida, uma das formas mais populares de transmissão cultural, valiosa estratégia de aprendizagem, e, também, um dos testemunhos do desequilíbrio cronológico existente entre os fenômenos da evolução biológica e da evolução cultural. Tanto um como outro destes fenômenos está sujeito aos efeitos das migrações, mutações e selecção, mas a evolução cultural é, no entanto, de tal forma dinâmica, que pode ser observada, devido ao seu ritmo acelerado, em certos pontos da Terra, numa escassa centena ou, mesmo, numa breve dezena de anos. Exemplo característico de difusão, mutação e selecção cultural é o caso da chonca macaense, velho jogo de tabuleiro, ainda popular há uma tríntena de anos, em Macau, que veio a ser, recentemente, abandonado.
- La «Solitude Préférentielle» : notes sur la mythologi essète (caucase du norte)Publication . Silva, José Carlos Gomes daII est un lieu commun que de proclamer que VEssai sur le Don (^) constítue encore de nos jours une pièce maitresse de Ia littêrature ethnologique. On sait par ailleurs quelle est rimportance que Claude Lévi-Strauss reconnait au fait de réchange lorsqu'il envísage Ia prohibítíon de Tinceste et le passage décisif de Tordre de Ia nature à celuí de Ia culture. En ce sens, íl est licite de parler d'un role positif de Téchange; mais toute prestation de femmes et de biens comporte des dangers qui représentent Taspect négatif du phénomène.
- Importância de uma lexicologia constrastivaPublication . Lino, Maria Teresa Rijo da FonsecaRenovar a pedagogia da língua materna ou de uma língua estrangeira é tarefa difícil, que implica uma recusa ou pelo menos pôr em questão toda uma compartímentação de disciplinas, estabelecida pela instituição escolar: compartímentação sincrónica que separa disciplinas e práticas muito próximas (ortografia, leitura, gramática, vocabulário, explicação de textos); compartímentação diacrónica que separa estas disciplinas, descoordenadamente, nos vários níveis de ensino.
- A função do paralelismo, do refrão e dos versos populares nas cantigas de amigoPublication . Rodrigues, Graça AlmeidaO paralelismo constitui uma das primeiras manifestações artísticas do homem. Primitivamente, o homem procedeu à representação da natureza como maneira de a dominar: o artista pretendia assenhorear-se da realidade, dos objectos ao seu redor, representando figuras e forças para ele misteriosas que, uma vez controladas f igurativamente, lhe seriam mais próximas. A arte tinha assim uma finalidade transcendente. Em termos muito sucintos, seria este o objectivo da arte que encontramos nas cavernas primitivas.
- Aspectos económico-sociais da Lisboa do século XV estudados apartir da propriedade régiaPublication . Gonçalves, IriaComo um dos mais ricos proprietários que de facto era, o rei possuía bens imóveis profusamente espalhados por todo o país, desde as pequenas leiras minhotas às azenha algarvias, desde as salinas ribatejanas aos soutos beirões. E se é certo que a maior parte desses bens era contituída por propriedades rústicas, também sabemos que em várias cidades e vilas detinha o monarca importantes rendimentos, provenientes dos prédios urbanos que nelas possuía. Entre essas cidades e vilas, Lisboa, como ê natural, não podia deixar de figurar (^). Desde sempre e incontestavelmente a mais importante do país, ela distanciou-se mais ainda de todas as outras povoações durante os séculos xiv e xv.
- Aplicação de uma grade enunciativa : leitura da ode : "a nada imploram tuas mãos já coisas" de Ricardo ReisPublication . Campos, Maria Henriqueta CostaNa constituição de uma lingüística do discurso, em que se concretiza a lingüística da parole prevista por Saussure nos seus cursos de Genève, surge um novo campo de grande fecundidade com a introdução da teoria da enunciação. A consideração dos parâmetros definidores da situação de enunciação vai permitir ultrapassar os limites da lingüística da língua que, fechada sobre o signo, avessa por preocupação metodológica a todo o elemento exterior ao sistema, bloqueava qualquer tentativa de construção duma teoria do discurso. Mas este ir além dos limites da língua não implica abandono do rigor científico que acompanhou a ruptura epístemológica saussuriana e guindou os estudos da linguagem ao lugar de ciência de pleno direito. Não há, como receia KUENTZ (1972), recuperação de um sujeito privilegiado por uma análise intuitiva e impressionista. A teoria da enunciação tem como objecto, não a parole saussuriana definida como «acto individual de vontade e inteligência» (CLG, p. 30) mas o conjunto das regras da enunciação, tão sociais na sua essência e independentes do indivíduo (CLG, p. 37), tão «produto de forças sociais» (CLG, p. 108), como a instituição social que ê a langue saussuriana e, como ela, existindo «em virtude de uma espécie de contrato passado entre os membros da comunidade » (CLG, p. 31).
