IHMT: SPIB - Teses de Doutoramento
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- Doenças não Transmissíveis em refugiados, requerentes de asilo e beneficiários de proteção subsidiária recolocados ou reinstalados em PortugalPublication . OLIVEIRA, Ana Cristina Simões Pinto de; FRONTEIRA, Inês; CONCEIÇÃO, CláudiaAs doenças não transmissíveis constituem atualmente um dos maiores desafios para a saúde global, sendo responsáveis por grande parte da mortalidade na Europa. Entre estas, destacam-se as doenças cardiovasculares, diabetes mellitus, cancro e doenças respiratórias crónicas, que comprometem a qualidade de vida dos indivíduos e sobrecarregam os sistemas de saúde. No entanto, esta problemática não se restringe às populações locais. Refugiados, requerentes de asilo e beneficiários de proteção subsidiária apresentam uma vulnerabilidade acrescida, potenciada por condições de vida precárias, trajetos migratórios marcados pelo risco e dificuldade, acesso limitado a cuidados de saúde e elevados níveis de stress psicológico. A adaptação a novos ambientes e as incertezas sobre o futuro agravam este cenário, refletindo-se no aumento da prevalência de doenças não transmissíveis. Além disso, o acesso aos serviços de saúde é frequentemente dificultado por barreiras financeiras, linguísticas, administrativas e pela falta de apoio especializado, o que se traduz em diagnósticos tardios e um maior risco de complicações. O objetivo desta tese foi analisar a prevalência e os fatores de risco associados às doenças não transmissíveis em refugiados, requerentes de asilo e beneficiários de proteção subsidiária. Para alcançar este objetivo, a investigação foi estruturada em três estudos complementares. O primeiro estudo consistiu numa Scoping review, que identificou as evidências disponíveis sobre a prevalência de doenças não transmissíveis e respetivos fatores de risco em refugiados, requerentes de asilo e beneficiários de proteção subsidiária. Foram incluídos 232 estudos, cujos resultados evidenciaram um aumento expressivo da produção científica sobre esta temática a partir de 2015, refletindo o impacto da denominada “Crise de Refugiados”. Os dados apurados permitiram identificar assimetrias geográficas e metodológicas. Para além da concentração de estudos em países ocidentais, particularmente nos EUA, que revela um desequilíbrio na representatividade dos contextos de acolhimento e da predominância de abordagens quantitativas de natureza transversal, observou-se uma grande diversidade nos métodos utilizados para avaliar as doenças não transmissíveis e os respetivos fatores de risco. Esta heterogeneidade metodológica, refletida nas diferentes definições, instrumentos de medida, contextos de recolha e critérios de inclusão, dificulta substancialmente a comparação entre estudos, comprometendo a possibilidade de síntese e generalização dos resultados. O segundo estudo avaliou mudanças nos fatores de risco para doenças não transmissíveis antes e depois da chegada a Portugal. Verificou-se um agravamento destes fatores no país de acolhimento, com destaque para o aumento do consumo de álcool e tabaco, maior sedentarismo e menor adesão a hábitos de vida saudáveis. O terceiro estudo explorou as perceções de profissionais de saúde e do setor social relativamente às necessidades em saúde e às barreiras no acesso e utilização de serviços de saúde por esta população. Foram identificadas dificuldades como a falta de competência cultural nos serviços de saúde, ausência de formação específica e escassez de mediadores culturais. Destacaram-se, ainda, as necessidades em saúde mental, descritas como particularmente prevalentes e difíceis de abordar, dada a influência de traumas e baixa literacia nesta área. No seu conjunto, a tese reforça a importância de políticas públicas integradas, culturalmente competentes e sustentáveis, com prioridade para a saúde mental e para o acompanhamento continuado destas populações no sistema de saúde português.
- Sociodemographic, behavioural, clinical, and viral genomic characterisation of men who have sex with men (MSM) diagnosed with HIV infection from 2014 to 2024 in Portugal. An innovative approach to define global health strategies for prevention, screening, and treatment of more vulnerable MSM.Publication . ABRANTES, Ricardo Emanuel Silva Costa de Macedo; ABECASIS , Ana Barroso; FAZENDEIRO , Marta Sofia Pereira Pingarilho; PIMENTEL, Victor FigueiredoResumo Introdução: Na UE/EEE, os homens que têm sexo com homens (HSH) constituem um grupo prioritário para o controlo da infeção por VIH-1. Em Portugal, houve 876 novas infeções em 2023, das quais 41,7% em HSH. A epidemiologia molecular permite orientar de forma mais precisa o controlo do VIH-1, identificando de clusters de transmissão (CT) e fatores associados. No entanto, o diagnóstico tardio (DT) mantém-se elevado na Europa. Além disso, com o acesso alargado à terapêutica antirretroviral (TAR) e à profilaxia pré exposição (PrEP), a resistência transmitida aos antirretrovirais (RT) poderá aumentar. Assim, o estudo do DT, dos CT e da RT, e dos seus determinantes nos HSH é fundamental para informar intervenções para o cumprimento das metas da UNAIDS 2030. Objetivos: Caracterizar os HSH recentemente diagnosticados com VIH-1 em Portugal, entre 2014 e 2024, integrando dados sociodemográficos, comportamentais, clínicos e genómicos virais. Métodos: Os artigos 1 e 2 utilizaram a amostra multicêntrica BESTHOPE de HSH recentemente diagnosticados com infeção por VIH-1 (2014-2019), em Portugal. O artigo 1 explorou os determinantes do DT. O artigo 2 analisou a RT e os CT, e os seus determinantes. O artigo 3 incluiu uma amostra de um centro comunitário em Lisboa, atualizando os resultados dos artigos 1 e 2 (2023–2024), e explorou a RT e os padrões de transmissão entre migrantes e nativos. Resultados: No primeiro artigo, a idade mediana foi 31 anos, 51% tinham rendimento mensal entre 501–1.000 euros e 28% eram migrantes. Cerca de 21% nunca tinham realizado teste de VIH antes do diagnóstico, e 42,3% apresentaram-se tardiamente (DT). 60% estavam infetados com estirpes do subtipo B. Idade mais elevada, rendimento superior, menor frequência de rastreio, história prévia de infeção sexualmente transmissível (IST) e carga viral mais alta foram associados ao DT. O segundo artigo identificou 38 CT com 104 HSH. A prevalência global de RT foi de 8,2%. Apenas o subtipo C do VIH-1 foi associado significativamente à RT. 10,5% dos CT continham ≥1 mutação de resistência sob vigilância (SDRM). Não foram observadas diferenças na prevalência de RT ou na proporção de HSH portugueses e migrantes dentro e fora dos CT. Idade ao diagnóstico, distrito de residência, sexo desprotegido com mulheres, testagem prévia, tipo de diagnóstico e subtipo do VIH-1 foram significativamente associados aos CT. O terceiro artigo revelou diferenças entre HSH nativos e migrantes quanto à idade ao diagnóstico, distribuição geográfica e subtipo do VIH-1, enquanto os comportamentos sexuais, padrões de testagem e prevalência de IST não foram diferentes. Não se observaram diferenças entre HSH nativos e migrantes integrados em CT. A análise filogenética sugere que os HSH migrantes são, sobretudo, infetados por outros HSH migrantes e fora de Portugal. Conclusão: Esta tese evidenciou insuficiências na frequência de testagem e na adesão à PrEP, apesar da elevada prevalência de comportamentos de risco entre HSH, a persistência do DT e dos seus determinantes, a relevância da identificação de CT e da análise dos seus determinantes, os padrões de RT, a crescente importância dos HSH migrantes na epidemiologia do VIH-1 em Portugal e das dinâmicas transnacionais das redes de transmissão do VIH-1.
- Cotrimoxazole and isoniazid - Preventive therapies for patients with human immunodeficiency virus: assessing what works and what does not work in countries with a high burden of human immunodeficiency virus and tuberculosis and a case study based on the province of Maputo in Mozambique.Publication . MÜLLER, Pia; LAPÃO, Luís Velez; SIDAT, MohsinIntrodução: O cotrimoxazol e a isoniazida, fornecidos como tratamento preventivo (TPC, TPI), demonstraram ser intervenções eficazes para a prevenção de algumas infeções oportunistas incluindo tuberculose (TB) em pessoas infetadas com o vírus da imunodeficiência humana (VIH). A eficácia destes medicamentos traduz-se em reduções significativas da mortalidade e morbilidade. Embora os governos dos países com elevada carga de TB/VIH tenham feito esforços para implementar as recomendações de terapêuticas preventivas em políticas, continua a ser um desafio nestes países. Moçambique está entre os 30 países com uma elevada carga de TB/VIH, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Contudo, Moçambique relata ter sucesso na implementação da TPC, assim requerendo melhor compreensão para que esta boa prática possa ser partilhada. Objetivos: O objetivo dos estudos desenvolvidos neste doutoramento é explorar as barreiras ao TPC e TPI em países com elevada carga de TB/VIH, e identificar estratégias que possam melhorar a sua implementação. Os objetivos específicos são: (1) explorar os obstáculos às terapias preventivas identificadas nestes países e gerar um conhecimento explicativo das razões das dificuldades na sua implementação; (2) comparar o TPC e o TPI nas semelhanças e diferenças nas barreiras de implementação; e (3) identificar facilitadores para a implementação de ambos os tratamentos. Considerando a experiência positiva de Moçambique, outro objetivo foi (4) explorar possíveis factores responsáveis pelo sucesso da implementação do TPC em Moçambique. Métodos: Para atingir estes objetivos foram desenvolvidos dois estudos. Foi realizada uma revisão sistemática da literatura com métodos mistos, complementada por uma metassíntese, com o objetivo de incluir evidência publicada com revisão por pares proveniente de países com elevada carga de TB/VIH; Foi também realizado um estudo qualitativo, com entrevistas gravadas em áudio a intervenientes governamentais, para obter a perspetiva de Moçambique. Resultados: No primeiro estudo, foram identificados 482 artigos, dos quais 40 foram incluídos para a revisão. A maioria dos temas relacionados com barreiras foi idêntica para ambas as terapias. As "barreiras relacionadas com a prestação de serviços" e as "barreiras relacionadas com o paciente e com a comunidade" foram as mais identificadas para ambas as terapias. As "barreiras relacionadas com os prestadores de cuidados de saúde" foram também importantes na implementação do IPT. A maioria dos facilitadores identificados referem-se a atividades de fortalecimento do sistema de saúde. No segundo estudo, cinco temas emergiram como fundamentais para a implementação da TPC na Província de Maputo: (a) O papel da governação e liderança, (b) Estratégias de gestão farmacêutica, (c) Modificações na prestação de serviços, (d) Factores relacionados com os prestadores de saúde e (e) Percepções dos pacientes. Conclusão: Esta Tese fornece informações sobre as barreiras que podem surgir a diferentes níveis do sistema de saúde, críticas para a investigação em países com elevada carga de TB/VIH. Esta revisão propõe ainda aos decisores políticos estratégias para melhorar a implementação de tratamentos preventivos nestes países. Na Província de Maputo, a melhoria das estratégias de implementação (disponibilidade de medicamentos e viabilidade da prestação de serviços baseados em unidades de saúde) foi crucial para o progresso da implementação do TPC.
- Cost-effectiveness of rotavirus and human papillomavirus vaccines in children and girls, in MozambiquePublication . GUIMARÃES, Esperança Lourenço Alberto Mabandane; DEUS, Nilsa Oliveira Razão de; MARTINS, Maria do Rosário Oliveira; PECENKA, ClintIntrodução: A gastroenterite associada a rotavírus (RVGE) e o câncer cervical (CC) são globalmente doenças com elevada carga de mortalidade em crianças e mulheres, respetivamente, sobretudo em países de baixa e média renda. Para prevenir estas doenças, em 2015 e 2021, Moçambique introduziu no Programa Alargado de Vacinação as vacinas contra Rotavirus, Rotarix® e contra o Papilomavírus Humano (HPV) Gardasil® tetravalente (Gardasil-4®). Porém, antes deste projeto não havia evidências de longo prazo das implicações da RVGE e do CC, nem sobre o custo-efetividade da vacinação de crianças e raparigas contra o RV e o HPV (agente causal do CC). Objetivou-se estimar o impacto e o custo-efetividade da vacinação com Rotarix® e Gardasiil-4® atualmente usados no país, e de potencias alternativas futuras, como Rotavac® e Rotasiil® contra RV, e CervarixTM e Cecolin® contra HPV. Métodos: Usou-se um modelo de coorte estático de análise de decisão (UNIVAC), para estimar o impacto e o custo-efetividade das vacinas Rotarix, Rotasiil e Rotavac em crianças, (2021 a 2030), e das vacinas Gardasiil-4, Cecolin e Cervarix em raparigas de 9 anos, incluindo uma campanha de vacinação multietária em raparigas dos 10-14 anos (2022 a 2031). O resultado primário foi o custo incremental por ano de vida ajustado para incapacidade (DALY) prevenido, na perspetiva governamental. Cada vacina foi comparada à ausência de vacina e entre si. Análises de sensibilidade determinística e probabilística foram realizadas para avaliar as incertezas do modelo. Resultados: A projeção de dez anos revelou que sem a vacina contra RV, 11.000 mortes infantis ocorreriam em Moçambique. As vacinas potencialmente reduzem a carga de RVGE em 41% (Rotarix) e 48% (Rotavac e Rotasiil). Com o suporte da Gavi, o custo da vacinação foi menor com a Rotarix (US$ 31 milhões), porém, sem suporte, Rotasiil foi menos dispendiosa (US$ 75,8 milhões). Com o suporte da Gavi todas as vacinas foram custo-efetivas (limiar 0,5 vezes o Produto Interno Bruto (PIB) per capita (p.c) (US$ 224,3)). Rotarix dominou as demais (US$ 102/DALY evitado), apresentando 98% de probabilidade de ser custo-efetiva. Porém, sem o apoio da Gavi, Rotasiil foi a melhor, com 30% de probabilidade de ser custo-efetiva. Quanto ao CC, sem a vacinação contra o HPV, 282.687 mortes associadas à doença decorreriam no país. Considerando a proteção cruzada, as vacinas preveniriam entre 53% e 70% dos casos e mortes pelo CC. Sem o subsídio da Gavi o custo do programa de vacinação é menos dispendioso com Cecolin (US$ 60 milhões). Todas as vacinas foram custo-efetivas. Com o suporte da Gavi e proteção cruzada, Cervarix foi dominante, mas, sem suporte da Gavi, Cecolin foi a melhor (US$ 26/ DALY evitado), com 100% de probabilidade de ser custo-efetiva ao limiar de 0,35xPIB p.c. (US$ 175). Conclusão: As vacinas contra RV e HPV têm potencial para reduzir a carga de RVGE em crianças e CC em mulheres. As vacinas são custo-efetivas considerando uma variedade de assunções. Com o suporte da Gavi, Rotarix é a opção mais custo-efetiva, inversamente, sem o suporte, Rotasiil seria a melhor opção. Quanto às vacinas contra HPV, todas as vacinas foram custo-effectivass, contudo sem o suporte da Gavi Cecolin foi dominante. Para melhorar a eficiência da tomada de decisão, estas vacinas devem ser reavaliadas usando estimativas atualizadas.
- Desenvolvimento e impacto do movimento grevista de médicos: estudo de caso da greve dos médicos moçambicanos de 2013Publication . MANGUELE, Alexandre Lourenço Jaime; FERRINHO, Paulo; CRAVEIRO, Isabel; CABRAL, António; SIDAT, MohsinRESUMO Introdução: Greve é uma paralisação individual ou coletiva, temporária, parcial ou total da atividade laboral pelos trabalhadores. A ocorrência de greves no sector da saúde têm sido uma preocupação frequente em todo mundo, dado seu impacto negativo na prestação de serviços e cuidados aos pacientes. A greve dos médicos e profissionais de saúde moçambicanos em 2013 é considerada por muitos o maior movimento grevista da história no país, que deixou marcas que até a data são razão de debate e controvérsia. Objetivo: A presente tese tem como objetivo compreender as causas, estratégias e impacto percebido da greve dos médicos moçambicanos em 2013 na perspetiva dos principais atores envolvidos, fazendo uma retrospetiva de tudo o que aconteceu, incluindo os bastidores e momentos de tensão durante as negociações. Estes detalhes foram pouco abordados em estudos semelhantes e são importantes para um melhor entendimento e gestão deste tipo de movimento. Métodos: Realizou-se um estudo de caso, de abordagem qualitativa fenomenológica, com base em entrevistas semiestruturadas dirigidas aos principais atores envolvidos no movimento grevista dos médicos moçambicanos em 2013 e análise de documentos (como correspondências, atas de reuniões, despachos, jornais) produzidos no âmbito deste movimento. A amostragem não probabilística em bola de neve foi utilizada para selecionar os participantes até atingir a saturação dos dados. As entrevistas foram transcritas e importadas para o Nvivo versão 12, e os dados foram analisados através de análise de conteúdo para identificar temas relacionados com as questões de investigação. Resultados: O principal motivo das reivindicações foram salários considerados baixos e más condições de trabalho. Com a greve, o governo adotou uma série de medidas para manter os serviços mínimos de saúde, restringindo-os para casos urgentes, cancelando as consultas e cirurgias eletiva, e readaptou as funções do pessoal disponível. Para pôr fim à greve, o governo recorreu a mecanismo intimidatórios e punitivos, o que gerou muita tensão e revolta, com troca de acusações nas médias. Enquanto isso, os grevistas marchavam e exibiam cartazes nas ruas, e pediam intervenção de embaixadores e outras entidades influentes no país. Os pacientes viam seus cuidados adiados, o tempo nas filas de espera pelos cuidados de saúde aumentava, as farmácias ficavam sem medicamentos, e com os médicos não grevistas sobrecarregados (e em alguns casos, descontentes), os cuidados de saúde perdiam certa qualidade. A pós-graduação ficou suspensa e alguns grevistas foram suspensos, transferidos e aposentados à semelhança do que aconteceu em alguns países da África subsaariana. Conclusão: A greve foi motivada por aspetos associados aos salários e às condições de trabalho. Algumas das abordagens adotadas distanciaram ainda mais as partes e atrasaram o consenso. A greve teve consequências negativas para todos, sobretudo para os doentes. Há necessidade de reflexão sobre o custo-benefício da greve no sector da saúde e nas formas de fazer greve num sector tão sensível quanto o da saúde. Este estudo fornece lições importantes para melhorar as estratégias de prevenção e gestão de greves no sector da saúde.
- Planeamento estratégico em saúde no contexto da Agenda 2030 para o desenvolvimento sustentávelPublication . GARCIA, Ana Cristina; FERRINHO, Paulo; HARTZ, ZulmiraA necessidade de aprofundar o conhecimento quanto à potencial contribuição do planeamento estratégico em saúde para o aumento do nível de saúde das populações e o fortalecimento dos sistemas de saúde no paradigma do desenvolvimento sustentável e quadro concetual e operacional da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, tem sido expressa em Portugal e no mundo. Ciente desse potencial, mas, também, da complexidade em ajustar o planeamento ao modelo de desenvolvimento humano vigente e, simultaneamente, aos desafios crescentes que se têm colocado à saúde nas últimas décadas, com particular atenção para os inerentes à pandemia de COVID-19, foi desenhada esta investigação com o objetivo geral de contribuir para a construção de um modelo de planeamento estratégico em saúde aos níveis nacional e internacional, em conformidade com o modelo conceptual do desenvolvimento sustentável e os princípios, valores e objetivos da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Optando-se por uma abordagem metodológica de métodos mistos com dominância qualitativa, procurou-se responder à pergunta de investigação recorrendo à estratégia de estudo de caso, centrada no planeamento estratégico em saúde enquanto caso. Os resultados globais da investigação emergiram da integração dos resultados de quatro estudos específicos – um estudo qualitativo, dois estudos quali-quantitativos e um estudo quantitativo -, desenvolvidos para dar resposta a quatro objetivos específicos. Foram utilizados dados primários recolhidos por observação participativa, análise documental e questionários, e secundários recolhidos por revisão da literatura e análise documental. Analiticamente, recorreu-se a análise documental, análise temática, análise estatística univariada, análise estatística para cálculo do coeficiente alfa de Cronbach e análise da materialidade. Os resultados mostraram de forma convergente que a mobilização social e das comunidades no processo de planeamento em saúde parece ser facilitador da seleção e implementação de estratégias de saúde no contexto do desenvolvimento sustentável, o que foi reforçado pela pandemia de COVID-19, parecendo urgente a consensualização da nomenclatura inerente ao planeamento em saúde sustentável. O modelo GAPFRAME, um dos instrumentos de apoio à operacionalização do processo de planeamento, foi adaptado para Portugal e avaliado quanto à consistência interna das suas dimensões através do coeficiente alfa de Cronbach, que se mostrou entre alta e muito alta. Sendo utilizado como referencial de uma análise da materialidade, foi possível priorizar questões de sustentabilidade percecionadas como de elevada relevância para a elaboração e implementação de planos de saúde sustentável por todos os setores da sociedade em Portugal. A análise da materialidade revelou, ainda, um potencial interessante na mobilização de toda a sociedade na priorização estratégica. Por outro lado, os profissionais de saúde pública expressaram uma perceção favorável quanto à aceitação do processo de planeamento em saúde sustentável por profissionais, sociedade civil e população, mas menos favorável em relação à capacitação, tempo dedicado e disponibilidade de recursos humanos e financeiros para a prática ao nível subnacional, comprometendo a sua exequibilidade, embora com possibilidade de reversão. Conclui-se que com desenvolvimentos metodológicos adequados, o planeamento em saúde adaptado à Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável é aceitável, exequível e desejável para garantir o contributo do setor da saúde para a consecução dessa Agenda.
- Literacia em saúde para mulheres egressas do sistema prisional: construção e validação de material educativoPublication . BONATO, Patrícia de Paula Queiroz; VENTURA, Carla Aparecida Arena; CRAVEIRO, IsabelRESUMO As pesquisas descrevem o aumento dos riscos à saúde de pessoas recentemente libertadas da prisão. Na realidade das mulheres, estudos revelam que competências limitadas de literacia em saúde intensificam experiências de marginalização, isolamento e vergonha. No Estado de São Paulo, o acompanhamento das pessoas libertadas da prisão é realizado pelas Centrais de Atenção ao Egresso e Família (CAEF), mas não há intervenção direta em saúde neste equipamento público. Assim, o objetivo do presente estudo foi o desenvolvimento e validação de tecnologia educacional para orientação em saúde a mulheres que saíram da prisão em uma cidade no interior de São Paulo. Trata-se de um estudo de validação de conteúdo educativo desenvolvido em três etapas, seguindo-se o modelo proposto por Polit e Beck: (1) Estudo qualitativo; (2) Modelagem; (3) Avaliação. A seleção dos conteúdos e ilustrações foi realizada por meio de revisão de literatura, entrevistas semiestruturadas com mulheres egressas e profissionais que as atendem, bem como por body-map storytelling com as mulheres egressas. Após a redação do material, o layout foi produzido por uma designer gráfica e validado por um Comitê formado por 15 especialistas das áreas de saúde da mulher, saúde prisional e construção de materiais educativos. A cartilha foi validada quanto à exatidão científica, conteúdo, linguagem, aparência, estimulação e motivação do aprendizado e cultura, obtendo média final de 0,81, e quase todos os itens foram avaliados como pertinentes. Por fim, o material foi submetido à avaliação pelo público-alvo, havendo concordância das mulheres em mais de 90% em todos os atributos de avaliação, com IVC total de cada atributo de 0,98. Acredita-se que, por meio desta tecnologia, será possível contribuir para o incentivo ao autocuidado dessas mulheres em fase tão complexa de suas vidas, quando muitas demandas tidas como mais urgentes tornam o cuidado à saúde secundário no rol de prioridades pessoais, e uma vez que não existia material previamente disponível nesta temática no país. Palavras-
- Conhecimentos, atitudes, práticas e perceções dos profissionais de saúde e da comunidade sobre o manuseio da Febre Aguda e da Malária em MoçambiquePublication . MONTEIRO, Vanessa da Conceição Onofre; CRAVEIRO, Isabel; GUDO, Eduardo SamoRESUMO Introdução: A doença febril aguda é uma das principais causas de procura de cuidados de saúde na África Subsariana, incluindo Moçambique. Apesar de alguns avanços no Serviço Nacional de Saúde como a introdução do teste de diagnóstico rápido para malária, o manuseio da febre continua a ser um desafio devido à prevalência de doenças como a malária e outras infeções febris emergentes. O objetivo principal do estudo é avaliar os conhecimentos, atitudes, práticas e perceções dos profissionais de saúde e da comunidade em relação ao manuseio da febre aguda e da malária em Moçambique. Material e Métodos: Trata-se de uma pesquisa com abordagem metodológica mista, tendo sido realizados 3 estudos: 1) com Grupos de Discussão Focal (GDF) a membros da comunidade. E entrevistas em profundidade, GDF e inquérito por questionário a profissionais de saúde; 2) recolha de informação acerca do manuseio da febre em livros de registo em 4 unidades sanitárias; 3) análise de dados secundários do Inquérito de Indicadores de Malária 2018 em crianças com histórico de febre. Resultados: Estudo 1- As infeções são a causa mais frequente da etiologia da febre segundo os profissionais de saúde, mas a maioria não fez a classificação biológica dos patógenos envolvidos. No geral, o seu conhecimento sobre doenças febris emergentes era 15,7%, 21,7% e 60,2% para chikungunya, leptospirose e dengue, respetivamente. No entanto, 64,7% desconheciam o tratamento da dengue e nenhum dos profissionais de saúde participantes tinha conhecimento do tratamento para chikungunya. Nos casos de febre, o teste de malária é considerado prioritário, outros exames para o manejo da febre são limitados e dependem da disponibilidade nas unidades sanitárias. Os membros da comunidade têm o costume de se dirigir à unidade sanitária, mas apenas depois de esgotar todas as alternativas associadas aos hábitos socioculturais para tratar a febre. As alternativas mais comuns são o uso de medicamentos tradicionais e a automedicação. As principais barreiras para a procura de cuidados são a distância, o mau atendimento, os hábitos culturais, a falta de medicamentos e o medo da morte. Estudo 2- Foram registados 16 691 casos de febre de janeiro de 2018 a dezembro 2019, 77,8% na Zambézia e 22,2% na Cidade de Maputo, sendo que 70,4% não tinham um diagnóstico etiológico. Foram positivos para malária 29,5%, 0,07% dos casos negativos foram tratados com antimaláricos, e 78,35% foram tratados com antibióticos. Estudo 3- A prevalência da febre foi de 31,0% (IC:27,7 - 34,5). Entre os pacientes febris, 33,7% receberam tratamentos antimaláricos, e 12,7% usaram antibióticos para tratar a febre. A maioria dos pacientes com febre, 69,3%, procurou cuidados de saúde, e 97,0% desses procuraram serviços de saúde públicos. Conclusões: Os resultados desta pesquisa evidenciam uma diminuição nos casos de pacientes febris negativos para malária tratados com antimaláricos e, simultaneamente, revelam um aumento na prescrição de antibióticos. Limitações no conhecimento de outras doenças febris e a falta de meios de diagnóstico comprometem a abordagem adequada da febre. Destaca-se a urgência de um envolvimento da comunidade na resolução dos desafios relacionados com o atraso na procura de cuidados de saúde.
- Fatores associados ao tratamento da tuberculose no sistema prisionalPublication . PLACERES, Aline Ferreira; FRONTEIRA, Inês; ARCÊNCIO, Ricardo AlexandreRESUMO Introdução A tuberculose (TB) na População Privada de Liberdade (PPL) traz indicadores alarmantes, é uma emergência de saúde pública e viola os direitos humanos. A complexa situação epidemiológica, obriga à necessidade de maior atenção a essa população. Objetivos Analisar os fatores associados aos desfechos de tratamento da tuberculose da PPL em Manaus-AM à luz do contexto de encarceramento local e dos sistemas de atenção à saúde das Unidades Prisionais da cidade. Métodos Realizados três estudos - Scoping Review e meta-análise visando analisar as evidências científicas existentes sobre a ocorrência de TB nas PPL; estudo de coorte histórica de todos os casos de TB na PPL notificados entre 2014 e 2021 em Manaus, que analisou os fatores associados ao tratamento da TB; e um estudo qualitativo, ancorado na análise de conteúdo proposta por Bardin, que analisou a percepção de profissionais de saúde e gestores de Unidades Prisionais de Manaus sobre o controle da TB no sistema prisional. Resultados A meta-análise revelou que os países com carga elevada e baixa de TB tiveram uma prevalência de doença de 3,5% e 1,4%, respectivamente. Nos países de renda baixa e média-baixa, a prevalência de TB ativa foi de 3,1% e nos de renda média-alta e alta de 2,4%. Entre 2014 e 2021, a incidência cumulativa de TB entre a PPL de Manaus aumentou de 0,3% para 2,5%, respectivamente. A incidência cumulativa neste período foi de 1,6% na PPL e de 0,1% na população em geral, valor apontando para a vulnerabilidade da PPL. O estudo de coorte histórica permitiu concluir que na PPL de Manaus as pessoas com HIV, reingresso após abandono, recidiva de TB ou transferência de unidade tiveram duas vezes mais chances de terem desfechos de tratamento desfavoráveis. Quando se devolveram os resultados dos dois primeiros estudos aos profissionais de saúde, constatou-se que a busca ativa, exames e isolamento são as principais estratégias para o controle da TB no sistema prisional. Para estes profissionais, o tratamento supervisionado e eficiente foram um dos pontos fortes no tratamento da doença. A perda do seguimento após a saída do sujeito da unidade e os fatores ambientais/superlotação foram considerados os pontos fracos. A falta de assiduidade ao tratamento fora da unidade e os efeitos colaterais da medicação foram considerados os principais fatores para o abandono do tratamento. Conclusão Para que a doença seja controlada nos presídios, é necessário que o sistema conte com ações que previnam a doença, promovam a saúde, ofereçam diagnóstico e tratamento eficaz para todos os casos. Para isso, não é possível um olhar fragmentado do controle da doença apenas para a pessoa com TB, as estratégias precisam contemplar todas as esferas, sociais, ambientais, clínicas, direcionando o olhar também para as PPL que continuam saudáveis.
- Infecção pelo vírus da hepatite B prevalência, factores de risco, perfil serológico e genotípico viral. Análise e caracterização de uma amostra da população a nível dos cuidados de saúde primárias em Luanda contribuição para a prevenção e controlo da hepatite viral BPublication . CONSTANTINO, Antónia Francisco Matoso; CUNHA, Celso Vladimiro Ferreira de Abreu; CASSUL, Augusto; FORTES, FilomenoA OMS considera a infecção VHB um problema de saúde pública global, com estimativa actual de 296 milhões de pessoas cronicamente infectadas e incidência 1.500.000/ano, dos quais 990.000 em África, onde com uma prevalência de 82.300.000, é causa de 50 - 70% das hepatites agudas, principal causa de hepatite crónica, cirrose, 3/4 dos hepatocarcinomas e 230.000 mortes/ano. Das 6,300.000 crianças menores de 5 anos AgHBs+, 70% residem em África. Segundo a OMS, o combate ao VHB exige políticas baseadas em evidências epidemiológicas loco-regionais para acções ajustadas à realidade de cada país. Escassa ainda é a informação sobre o VHB em Angola. O objectivo deste estudo foi analisar o perfil epidemiológico da infecção VHB a nível dos cuidados de saúde primários, em Luanda. Realizou-se um estudo de prevalência transversal descritivo. A dimensão da amostra foi determinada utilizando-se o OpenEpi Versão 2 - SAPropor, assumindo-se uma estimativa de 5.000.000 de habitantes e prevalência do VHB de 15%, semelhante aos países da mesma região. Foram seleccionados por amostragem aleatória simples por sorteio em 6 centros de saúde em Luanda, de 5 de Junho a 21 de Julho de 2005, 1123 indivíduos angolanos de ambos sexos com idades entre 1-72 anos. A recolha dos dados demográficos e factores de risco comummente associados ao VHB foi feita por inquérito utilizando-se um questionário com perguntas fechadas. Salvaguardaram-se os direitos dos participantes segundo os princípios normativos positivos da Declaração de Helsínquia. Determinaram-se a serologia para o VHB, VHD e a ALT, pelo método de Imunoensaio por quimioluminescência. A genotipagem foi feita por PCR e para a extração do DNA viral, utilizou-se o kit QIAmp DNA Blood M, (Qiagen, GmBH - USA). Os nossos resultados mostraram predomínio feminino (77,6%) com 82,3% da amostra com idade compreendida entre 16-40 anos, <=15 anos (9,5%) e > 40 anos (8,3%). Todos negavam vacinação prévia contra o VHB. A prevalência global de AgHBs foi alta (13%) sendo maior nas mulheres grávidas (14,5%). Proporcionalmente, os mais jovens (1-5 e 6-10 anos) apresentaram maior prevalência (AgHBs 27% e 22,7%), respectivamente. Havia evidência de replicação viral (AgHBe+) em 20,4% dos infectados (todos menores de 40 anos). Tratou-se sobretudo de uma população AntiHBe (75,1%). Em 75,9% dos casos havia evidência de contacto passado com o VHB (AcHBc+); imunidade activa (AcHBs+/AcHBc+) 62,5%; coexistência incongruente AgHBs/AcHBs - 8,4% e dupla-infecção VHB/Delta - 4,7%. A análise (grávidas vs não grávida) mostrou nas grávidas maior prevalência AgHBs -14,5% vs 9,4% (p=0,001); menor replicação viral - AgHBe 13,8% vs 27,6% (p=0,026) e menor imunidade activa - AcHBs 19,5% vs 62,5% (p=0,035). ALT foi normal em 88,2% dos infectados. Os genótipos circulantes foram: E e A com predomínio E (95%). O sexo sem protecção foi prevalente em ambos sexos ♂ 97,5% vs ♀ 98,8% (p=0,18). A multiparidade de parceiros foi predominantemente masculina ♂98,4% vs ♀-11,14% (p=0,001). Ambos factores de risco apresentaram associação com o VHB: p= 0,04 e 0,026, respectivamente. Este trabalho constituiu a primeira evidência epidemiológica sobre o VHB, nos cuidados de saúde primários, em Luanda.
