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Uma amarra ao mar e outra à terra. Cristãos-novos no Algarve (1558-1650)

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Orientador(es)

Resumo(s)

Em Dezembro de 1558, uma cristã-nova de Vila Nova de Portimão, Grácia Mendes, apresentou-se perante o vigário-geral do Algarve para se confessar judaizante e denunciar outros que, tal como ela, criam na Lei de Moisés e guardavam as suas cerimónias. Começava assim a primeira entrada da Inquisição no Algarve. Até meados do século XVII, mais duas vagas de prisões registaram-se na região, uma com início na visita inquisitorial de 1585, outra prolongando-se pelas décadas de 30 e 40 de Seiscentos. Em quase um século, ultrapassaram os oitocentos os cristãos-novos residentes no Algarve alvo de processo inquisitorial. A par da perseguição religiosa, também enfrentavam o ostracismo social, sustentado no estigma do “sangue hebraico”, ao qual o discurso oficial associava todos os vícios e, em particular, a tendência natural para a heresia. A questão coloca-se em como estes dois fenómenos – a perseguição e a exclusão – influenciaram a evolução da minoria cristã-nova num espaço que, pelas suas próprias características, também se revelou um factor essencial na definição da identidade do grupo e na sua transformação. Os locais de residência mudaram: por um lado, dentro das próprias cidades e vilas, acompanhando o seu próprio desenvolvimento; por outro, no abandono da terra natal rumo a outras paragens, dentro e fora do Algarve, dentro e fora de Portugal. A mobilidade do grupo era intensa e ainda mais quando encorajada pela ameaça do cárcere. Para muitos, a própria actividade profissional exigia um constante trânsito. O comércio, a par com os mesteres, era a área de actividade predominante. Porém, o vínculo à terra nunca chegou a ser quebrado e, com o avançar do século XVII, tornou-se cada vez mais sólido. Também mais sólidos tornaram-se os laços com famílias cristãs-velhas, consagrados através de uniões matrimoniais. A consequência foi o aumento do número de indivíduos de “sangue misturado”, os quais, na terceira entrada da Inquisição no Algarve, representam já a maioria dos processados. Assimilação? Essa é uma ideia que contrasta com o facto de cristãos-novos, independentemente da sua proporção de “sangue hebraico”, continuarem a povoar os cárceres e a ser alvo de discriminação no acesso a oficios e instituições. Continuava a ser-lhes associadas crenças, comportamentos e rituais alegadamente judaizantes. As confissões dos réus indiciam uma transformação a este nível, fruto da necessidade de reforçar o segredo e a simulação face à crescente pressão do Tribunal, mas também do progressivo conhecimento da forma como funcionava a máquina inquisitorial e das estratégias para conseguir uma pena mais leve e um cárcere mais curto. Quando chegamos a meados do século XVII, o cenário que encontramos é o de um grupo dividido: por um lado, os que tendem a se aproximar da maioria cristã-velha; por outro, os que afirmam e se orgulham da sua identidade de “gente de nação”. Entre os judaizantes, essa divisão traduz-se na sua fé e na ritualização da mesma, uma dualidade que extravassa os domínios do público e do privado, os quais, aos olhos da Inquisição, constituem as fronteiras da vida religiosa do judaizante: cristão público, judeu secreto.

Descrição

Tese apresentada para cumprimento dos requisitos necessários à obtenção do grau de Doutor em História Económica e Social Moderna

Palavras-chave

Algarve Inquisição Cristão-Novo Judaizante Sangue

Contexto Educativo

Citação

Projetos de investigação

Unidades organizacionais

Fascículo

Editora

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa

Licença CC