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On Fleshes: For a Constellation of a Contemporary Pulsive Speech
Publication . Matos, João Pedro Pereira de; Miranda, José Augusto Nunes Bragança de
Há um crescente apelo do termo carne que permeia a cultura material contemporânea.
Para rastrear este fenómeno, é preciso abordar duas crises relacionadas entre si: o
problema da formação social e o problema da afectividade. Esta dissertação, servindose
de uma abordagem genealógica, começa por desemaranhar a carne da sua axiomática
cultural propondo uma fundamentação alternativa no entendimento físico da sárx na
Grécia Antiga. Esvaziada de conotações éticas e psíquicas, esta concepção de carne põe
em relevo uma ansiedade de articular uma materialidade viva partilhada, animada por
transformações naturais-culturais como a penetração, a transplantação, a extensão e, de
maneira mais significativa, a comunicação. Ao longo desta investigação, este
entendimento da carne é utilizado como bisturi histórico para dissecar mudanças
significativas na organização das relações entre corpos e nos limites da afectividade
destes. São identificadas três extensões fulcrais do termo: o uso disciplinar da carne
pecadora na doutrina do cristianismo primitivo, a transformação na era colonial da carne
em corpo mercantilizado e a articulação contemporânea da carne no contexto da
reconfiguração do corpo político global. Em cada momento histórico, a carne emerge em
simultâneo como dispositivo de saber-poder — que permite repressão, mobilização e
produtividade — e como força especulativa que interrompe discursos hegemónicos ao
introduzir multiplicidade e potencialidade nas formações sociopolíticas. Esta dualidade
revela que a carne opera não apenas como ferramenta de controlo, mas também como
lugar de resistência criativa e conceptual. Este estudo recorre a diversas concepções de
carne articuladas por pensadores como São Paulo, Santo Agostinho, Merleau-Ponty,
Richard Kearney, Hortense Spillers e Eric Santner. Ao integrar teologia, fenomenologia,
teoria crítica racial, economia política e biopolítica, aborda o discurso multifacetado
sobre a carne através de uma lente filosófico-crítica. O objectivo é construir uma
constelação contemporânea da carne que resista a mobilizações «totalitárias» do
conceito ao mesmo tempo que afirma a sua plasticidade linguística para articular a
hifenização de natureza-cultura. Esta abordagem diverge deliberadamente das
considerações culturais dominantes da carne, reenquadrando-a em tradições
inesperadas como o pensamento ecológico ou o perspectivismo antropológico. Ao
enxertar estes imaginários alternativos, este estudo conceptualiza a carne como ficção
primeira, um quase-conceito que surge no seio da abertura polimórfica da linguagem e
dos corpos. Este estudo defende que a carne assegura um espaço crítico entre as
estruturas de poder e o real, sustentando um discurso recalcitrante que estende as
capacidades afectivas dos corpos e continuamente redefine a «substância» dos laços
sociais. Situada na intersecção de natureza e cultura, esta dissertação interpreta a carne
como lente crucial para compreender o mundo tecnologicamente mediado de hoje, em
que as imagens e a informação constituem um terreno contestado e em que os
paradigmas da transparência e da representação capturam a linguagem das nossas
pulsões. Em última análise, esta investigação posiciona a carne como conceito
paradigmático para rearticular formações sociais e como ideia fundacional que permitea proliferação de imagens corporais por meio de uma fala pulsante, socialmente
generativa. Ao fazê-lo, afirma a relevância persistente da carne para navegar as
intersecções da corporização, da comunicação e da transformação social.
Unidades organizacionais
Descrição
Palavras-chave
Contribuidores
Financiadores
Entidade financiadora
Fundação para a Ciência e a Tecnologia
Programa de financiamento
OE
Número da atribuição
2020.06732.BD
