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A metalinguagem da revisão de textos
Publication . Fidalgo, Marta; Centro de Linguística da UNL (CLUNL)
A presente proposta visa chamar a atenção para a instabilidade conceptual que atualmente caracteriza as práticas profissionais no domínio da revisão de textos. Partindo do princípio de que “toda a produção linguística depende da actividade em que se insere” (Coutinho, 2008, p. 20), é possível considerar que a falta de referencial teórico-empírico relativamente a uma determinada atividade favorece a ocorrência de indefinições e incoerências a nível linguístico. Em concreto, a não valorização da revisão de textos, para além de condicionar a própria atividade, parece potenciar a indefinição terminológica no que diz respeito às práticas vigentes. Estando a revisão de textos necessariamente sujeita aos condicionalismos inerentes ao contexto social de que faz parte, é curioso constatar que não existe consenso quanto ao uso do termo “revisão”, podendo o mesmo implicar um vasto conjunto de tarefas e ser utilizado em diversas áreas (ensino, imprensa, legendagem, tradução especializada, entre outros). Em Portugal, a invisibilidade da atividade de revisão contrasta atualmente com a multiplicidade de palavras e expressões utilizadas pelos profissionais do setor. No âmbito da investigação em curso, as leituras feitas (p. ex., Pym, 2011; Robert, 2008; Brunette, 2000), os cursos de formação frequentados, assim como os contactos estabelecidos com alguns revisores, permitiram reunir, até agora, mais de trinta termos em português, que remetem para a prática da revisão, mas que nem sempre são usados de modo coerente. Por um lado, foi possível identificar termos que, apesar de se referirem a procedimentos distintos, são, muitas vezes, utilizados como sinónimos; por outro lado, verificou-se igualmente a existência de conceitos diferentes, que se referem às mesmas operações. Esta diversidade não é de todo exclusiva da língua portuguesa, já que também em inglês coexistem várias designações para realidades afins (cf. Mossop, 2014), às quais também se fará referência. Em prol do rigor terminológico e científico, que é expectável e desejável apresentar num projeto de doutoramento, a definição conceptual é uma etapa primordial do percurso que se pretende desenvolver. Neste sentido, a presente proposta visa elencar os vários termos já registados, numa tentativa de os categorizar, distinguindo-os ou agrupando-os, de acordo com os critérios que serão apresentados neste breve estudo. Tais critérios baseiam-se essencialmente numa abordagem descendente (cf. Voloshinov, 1990 [1929]) dos procedimentos referenciados, tendo em conta o quadro teórico e metodológico do interacionismo sociodiscursivo (cf. Bronckart, 1999). Em suma, pretende-se demonstrar que a reflexão sobre as práticas revisórias pode contribuir para uma melhor compreensão das formas linguísticas que as designam, sobretudo ao perspetivar a revisão de textos como uma atividade social e de linguagem. Trata-se, naturalmente, de um trabalho inacabado, sujeito a atualizações, mas que se afigura relevante, tendo em conta as definições circulares constantes dos documentos normativos que visam regular a atividade de revisão, designadamente a versão portuguesa da Norma Europeia EN 15038 (cf. IPQ, 2012).
Práticas Textuais 17|18
Publication . Jorge, Noémia de Oliveira; Coutinho, Maria Antónia; Fidalgo, Marta; Rosa, Rute; Centro de Linguística da UNL (CLUNL); Departamento de Linguística (DL)
A comunicação que nos propomos fazer tem como foco a apresentação de Práticas Textuais 17|18 – um projeto de operacionalização da apropriação do género textual artigo científico por alunos do Ensino Superior no ano letivo de 2017/2018, no âmbito da unidade curricular Práticas Textuais, que integra a estrutura curricular da licenciatura em Ciências da Linguagem na NOVA FCSH (Departamento de Linguística). Enquadrado teórica e metodologicamente pela perspetiva do Interacionismo Sociodiscursivo (ISD), formulado por Jean-Paul Bronckart (1997), o projeto em causa assumiu como centrais a “condição irredutivelmente semiótica (linguística) do saber” (Coutinho, 2003:26) e a preponderância dos géneros textuais (aqui encarados como pré-construídos históricos, criados pelas gerações precedentes e interiorizados a partir da experiência textual dos falantes) enquanto reguladores das práticas comunicativas. Assim, na sequência de outros trabalhos enquadrados pela postura teórica e epistemológica do ISD (por exemplo, Pereira, 2000; Cristóvão & Nascimento, 2004; Machado & colaboradores, 2009; Coutinho, 2013), o projeto Práticas Textuais 17|18 partiu do princípio de que a apropriação da linguagem académica se faz por via da apropriação formal dos géneros textuais que circulam no âmbito da atividade académica – desde a nota biográfica (académica) ao artigo científico, passando pela recensão crítica ou pela síntese (de artigos ou perspetivas teóricas) – e que essa apropriação passa pela praxis (mais do que pela explicitação de metalinguagem). O projeto visou dois objetivos complementares: 1) por um lado, implementar, no âmbito da unidade curricular Práticas Textuais, um percurso de apropriação formal do género artigo científico, teórica e metodologicamente enquadrado pelo ISD; 2) por outro lado, contribuir para a reflexão sobre o ISD, encarado como uma ciência de intervenção, com capacidade de operacionalização prática. Inspirado nos dispositivos didáticos sequência didática e modelo didático de género (Dolz & Schneuwly, 2004), e tendo em conta o contexto específico do Ensino Superior, o percurso didático implementado envolveu um projeto de comunicação autêntico – a publicação de artigos científicos produzidos pelos alunos, depois de terem sido abordados, em trabalho predominantemente oficinal, as dimensões ensináveis do género artigo científico – e permitiu chegar a duas conclusões: 1) a apropriação formal de géneros textuais ditos académicos poderá ser uma via produtiva para o domínio da linguagem académica; 2) a apropriação formal dos géneros académicos decorre do contacto direto com exemplares desses mesmos géneros, envolvendo simultaneamente práticas de leitura, escrita e reflexão sobre a língua em funcionamento – tal como se refere na Nota de Abertura da publicação a que o projeto deu origem: “O que está em causa é a apropriação de modelos e a experiência concreta de os pôr em prática. Porque nenhum saber declarativo (sobre escrita) se substitui à experiência pessoal de escrita. E nenhum saber anteriormente formulado se substitui ao trabalho de (re) formulação – de textualização – de quem dele se apropria.” (Jorge, Coutinho, Fidalgo & Rosa, 2018:6).
Articulação de quadros teóricos em benefício da construção do discurso académico
Publication . Fidalgo, Marta; Centro de Linguística da UNL (CLUNL)
A presente proposta de comunicação centra-se na atividade de revisão tradutológica e procura evidenciar a utilidade de conciliar quadros teóricos de domínios disciplinares distintos para fins de investigação e de construção do discurso académico neste domínio. Esta proposta, inserida na linha de trabalho do grupo Gramática & Texto do CLUNL, decorre de um projeto de doutoramento em Linguística do Texto e do Discurso, que está a ser desenvolvido na NOVA FCSH, no âmbito do Programa KRUse – Knowledge, Representation and Use.Na sequência de fragilidades já identificadas (Fidalgo, 2014) no que diz respeito à atividade revisória em Portugal, designadamente a carência de referencial teórico empírico, em português e sobre a língua portuguesa, no domínio da revisão em tradução, o presente trabalho parte do princípio de que a Linguística e os Estudos de Tradução se podem complementar com o intuito de colmatar essas lacunas.Subscrevendo os pressupostos teóricos e epistemológicos do Interacionismo Sociodiscursivo (ISD), enunciados por Jean-Paul Bronckart (1997), o projeto em curso foca a atividade de revisão de textos, enquanto prática de leitura e escrita, no contexto específico da indústria da tradução, tendo em vista o desenvolvimento da competência revisória em contexto formativo. Por este motivo, numa perspetiva de articulação e complementaridade relativamente à Linguística (do Texto), a investigação apoia-se igualmente nos Estudos de Tradução, designadamente na abordagem funcionalista desenvolvida por Christiane Nord (1991) e nos trabalhos sobre revisão tradutológica realizados por autores estrangeiros (Mossop, 2014; Robert, 2008).O trabalho de investigação parte da análise de um corpus paralelo, constituído por textos traduzidos (do inglês para o português europeu) e revistos, nos quais as alterações de revisão se encontram devidamente assinaladas. Com base numa abordagem metodológica simultaneamente qualitativa e quantitativa, assente no princípio de que o agir revisório (atividade e processo) se materializa nos textos (ações e produtos), a investigação pretende alcançar dois objetivos concomitantes: por um lado, demonstrar que os pressupostos teórico metodológicos do ISD podem contribuir para o estudo da revisão de textos no domínio da tradução; por outro, propor um modelo de categorização do agir revisório que articule princípios interacionistas e tradutológicos, e que possa ser aplicado em contexto formativo, considerando os condicionalismos atualmente vigentes no setor em questão. Este posicionamento de natureza interventiva vai ao encontro das preocupações do ISD, centradas no desenvolvimento humano e na formação ao longo da vida, ao mesmo tempo que conjuga áreas disciplinares tradicionalmente apartadas, mas que possuem um foco comum: a dimensão da comunicação.Assim, ao salientar as afinidades existentes entre modelos de análise textual de cada uma destas áreas – ambos focados numa abordagem descendente –, esta proposta permitirá concluir que i) o desenvolvimento do conhecimento em determinados domínios disciplinares pode resultar da conjugação de perspetivas teóricas já existentes; e ii) o estabelecimento de pontes deve cada vez mais nortear os propósitos da investigação, para que a mesma, ao dar o exemplo, possa também constituir a tão necessária interface entre o universo académico e o universo empresarial.
Da revisão de textos
Publication . Fidalgo, Marta; Centro de Linguística da UNL (CLUNL)
Embora se trate de uma atividade ainda pouco (re)conhecida no nosso país, a revisão de textos é fundamental em diversos setores (imprensa, publicidade, legendagem, tradução especializada, entre outros) e tem vindo a sofrer profundas transformações nos últimos anos. A nível internacional, a publicação de documentos de regulação, como é o caso da Norma Europeia EN 15038:2006, recentemente substituída pela Norma Internacional EN ISO 17100:2015, veio igualmente chamar a atenção para a necessidade de impor requisitos de qualidade no que se refere à prestação de serviços linguísticos. No entanto, se é verdade que a revisão é referida nesses documentos como uma das etapas obrigatórias no circuito de produção textual, nenhum deles define de forma explícita de que modo os procedimentos revisórios deverão ser aplicados. Em Portugal, por sua vez, é notória a falta de referencial teórico-empírico no domínio da revisão de textos em contexto profissional, já que os trabalhos disponíveis estão essencialmente relacionados com a revisão em ambiente escolar. Além disso, a inexistência de cursos de licenciatura especialmente vocacionados para o exercício da profissão de revisor, assim como a reduzida oferta em termos de formação complementar ou profissional, não só condicionam a própria atividade como também acentuam a sua invisibilidade. Partindo destas considerações preliminares, subjacentes ao projeto de investigação em curso, a presente proposta visa refletir sobre a revisão de textos, enquanto atividade social e de linguagem (cf. Coutinho, 2008), salientando a utilidade de a enquadrar numa corrente da linguística do texto e do discurso (LTD) que se afigura adequada a uma descrição mais abrangente das respetivas práticas, designadamente o quadro teórico do interacionismo sociodiscursivo (ISD), nos termos formulados por Jean-Paul Bronckart (1999). Numa primeira fase, demonstrar-se-á que as áreas da LTD e da revisão de textos possuem mais afinidades do que se poderia inicialmente prever, uma vez que ambas carecem de maior reconhecimento e consolidação – da mesma forma que a linguística foi progressivamente ampliando o seu objeto de análise, é necessário que a revisão de textos evolua de uma intervenção a nível ortográfico e/ou sintático para uma intervenção global, a nível textual. Para isso, é essencial uma mudança de foco, que assuma a revisão como uma prática social enquadrada em contextos de atividade específicos, nos quais as ações de linguagem individuais de cada um dos participantes na produção textual se encontram representadas no texto final. A revisão pode, assim, ser encarada como uma atividade de mediação linguística (cf. Bota, 2009; Bronckart, 2004), assumindo o revisor o papel de mediador das várias vozes que contribuem para a construção de sentido de um texto que percorre todo um circuito mais ou menos complexo, consoante o número de intervenientes na sua produção. Num segundo momento, recorrer-se-á à análise de pequenos textos empíricos (por exemplo, anúncios publicitários) com base nesta perspetiva de articulação. Partindo de uma 47 abordagem descendente (cf. Voloshinov, 19905 [1929]) para chegar à análise das formas linguísticas, tentar-se-á comprovar a necessidade de revisão dos textos apresentados, tendo em conta o funcionamento textual dos mesmos. A finalidade é demonstrar a utilidade dos pressupostos teóricos descritos, assim como a proficuidade inerente a uma abordagem integrada da revisão, que encare os textos como objetos complexos e “unidades comunicativas globais, necessariamente associadas a determinada actividade social, de que constituem um representante empírico.” (Coutinho, 2008, p. 202). Para o efeito, deverá ser possível concluir que i) muitos dos princípios epistemológicos e metodológicos do ISD poderão constituir um importante contributo para a valorização da atividade de revisão; e ii) é cada vez mais adequado e necessário fazer cruzamentos entre a análise linguística e a análise textual, inclusivamente em virtude da natureza multissemiótica patente em muitos textos, como será o caso dos exemplos utilizados.
Dos procedimentos às intervenções
Publication . Fidalgo, Marta; Centro de Linguística da UNL (CLUNL)
Partindo de uma lógica de cruzamento e interação disciplinar, a presente proposta de comunicação visa conciliar os pressupostos teórico-metodológicos do Interacionismo Sociodiscursivo, tal como apresentados por Jean-Paul Bronckart (1999), com o domínio da revisão de textos no âmbito dos Estudos de Tradução. Esta perspetiva de articulação pretende demonstrar de que modo os princípios interacionistas podem contribuir para a descrição e análise das práticas relacionadas com o agir revisório. Numa primeira fase, apresentar-se-á uma reflexão sobre a revisão de textos enquanto atividade social e de linguagem, ou seja, pensada numa perspetiva interacionista (cf. Fidalgo, 2014). Esta abordagem será depois complementada com uma conceção tradutológica da revisão, na qual esta última é simultaneamente encarada como um processo e um produto, na medida em que o texto revisto (produto) resulta do processo revisório antecedente (cf. Mossop, 2014; Parra Galiano, 2006). Num segundo momento, a possibilidade de conjugação dos dois domínios teóricos enunciados será explicitada mediante a apresentação de uma proposta de categorização do agir revisório, inspirada numa metodologia descendente, que se orienta do coletivo para individual e do social para o linguístico. Trata-se de um instrumento de descrição das práticas identificáveis num contexto de atividade específico e atual, designadamente a revisão de textos técnicos traduzidos. Tendo em conta a crescente utilização de ferramentas informáticas, bem como as respetivas implicações, tanto no que diz respeito ao circuito de produção textual como no que se refere aos textos efetivamente produzidos, reconhecem-se neste âmbito diversos tópicos passíveis de análise. Com efeito, o instrumento de categorização em causa pretende refletir duas ordens do agir revisório – a procedimental (relativa ao processo) e a verbal (relativa ao produto) –, que, apesar de indissociáveis, remetem para duas dimensões da atividade de revisão: os procedimentos e as intervenções. Esta diferenciação visa enquadrar as várias práticas revisórias e contribuir para uma classificação operacional das mesmas. Com o intuito de demonstrar de que modo o instrumento proposto reproduz a natureza dinâmica e interdependente das noções em apreço, serão igualmente apresentados exemplos concretos, extraídos de dois corpora de estudo, constituídos por textos provenientes da indústria dos serviços linguísticos. O propósito é ilustrar de que forma as referidas dimensões da atividade de revisão estão patentes nos textos, enquanto unidades comunicativas globais e representantes empíricos da atividade (cf. Coutinho, 2008), não devendo, por isso, ser consideradas numa lógica dicotómica, mas sim numa perspetiva integrada, que contemple o agir revisório na sua globalidade. Os dados disponíveis neste momento indicam, por exemplo, que o número de procedimentos identificáveis é consideravelmente superior ao das intervenções, de acordo com a categorização proposta. Contudo, tal não invalida as interdependências nem os níveis de interação representados no instrumento de descrição. Pelo contrário, as condições de produção textual, espelhadas em alguns dos exemplos selecionados, evidenciam a necessidade de considerar essa circularidade como algo inerente ao contexto de atividade em causa. Em suma, a presente proposta deverá permitir concluir que i) os princípios epistemológicos e metodológicos do Interacionismo Sociodiscursivo podem enriquecer a reflexão sobre a revisão de textos como atividade situada; ii) a proposta de categorização do agir revisório, aqui apresentada, visa perspetivar as noções de procedimento e intervenção como instrumentos praxiológicos, organizadores desse agir; e iii) este trabalho pretende ser um contributo para a construção de conhecimento numa área que enfrenta atualmente profundos desafios tecnológicos, suscetíveis de terem um forte impacto no desenvolvimento dos desempenhos profissionais. Como tal, as questões relacionadas com o desenvolvimento humano e a formação (profissional) carecem também de maior explicitação no que se refere à revisão de textos, tendo em conta o distanciamento ainda existente entre o meio académico e o meio empresarial neste domínio.

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PD/BD/105764/2014

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