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FCSH: DS - Teses de Doutoramento

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  • Violência Doméstica contra as Mulheres: políticas públicas e decisões judiciais: perspetiva de género
    Publication . Pais, Elza Maria Henriques Deus
    Com esta investigação, pretendemos compreender de que modo as políticas públicas para a prevenção e o combate à violência contra as mulheres e à violência doméstica se foram estruturando e até que ponto foram integrando a perspetiva de género definida nas políticas internacionais e europeias em matéria de igualdade e violência de género. Visámos ainda compreender de que modo as práticas jurídicas, através das decisões judiciais, se encarregaram de aplicar, ou não, as profundas e significativas mudanças que a Lei foi acolhendo. O enraizamento estrutural dos mitos e preconceitos, que civilizacionalmente se foram construindo em torno da violência doméstica, afetam todas as esferas da vida em sociedade, não sendo, obviamente, alheios a esta realidade, nem a comunidade jurídica nem os tribunais. Deste modo, almejámos introduzir uma compreensão mais abrangente das relações entre as componentes de género, social e historicamente enraizadas, e as decisões judiciais sobre violência doméstica contra as mulheres. O nosso objeto de estudo organizou-se em torno do levantamento das políticas públicas e da seleção de sentenças judiciais (275, numa primeira análise, seguidas de mais 49, numa segunda fase), durante o período de 2000 a 2022, submetidas a análise quantitativa e qualitativa para uma visão global e aprofundada do fenómeno em análise. A análise realizada centrou-se nos fatores legais e extralegais em torno dos quais são tomadas as decisões judiciais. Verificámos que o sistema é mais garantístico para com os agressores do que para com a proteção das vítimas e que existem alguns pontos de tensão entre a definição da Lei e a sua aplicação. Concluímos assim que julgar com perspetiva de género implica uma captação holística da génese protetora do bem jurídico e da dignidade da pessoa ofendida, bem como das relações de género, poder e controle em torno das quais se tem produzido e reproduzido a violência contra mulheres e a violência doméstica.
  • Sustainability and global businesses: Stakeholder welfare or shareholder wealth? Disaster capitalism and discourse: the collapse of the Córrego do Feijão dam, in Brumadinho, Brazil.
    Publication . Lima, Ana Vitória Alkmim de Souza; Pires, Iva Maria Miranda; Borden, Richard
    A indústria extrativa tem grande importância na economia de países periféricos, e movimenta enormes volumes de capital, notadamente sob o controle de empresas multinacionais. Entretanto, territórios de mineração são palco de desastres e tragédias socioambientais, que apresentam um cenário complexo de governança, caracterizado por desequilíbrios de poder entre os atores e pela ameaça à sustentabilidade dos sistemas socioecológicos atingidos pela atividade extrativa. Este trabalho busca compreender como o discurso corporativo se relaciona com outras dimensões das práticas sociais e interfere na promoção da sustentabilidade em um sistema socioecológico, no contexto do processo de reparação após o rompimento da barragem B1 da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, Minas Gerais, Brasil. A pesquisa, qualitativa, de caráter prático, descritivo e explanatório, analisa o discurso corporativo da Vale S.A., empresa proprietária da barragem, e o contradiscurso da população afetada, tendo em vista o contexto socio-histórico que envolve os acontecimentos. O referencial teórico, multidisciplinar, reúne diversos campos além das ciências sociais, como a comunicação, a administração, a biologia e o design. A abordagem começa na sustentabilidade dos sistemas socioecológicos, ameaçados por problemas perversos, focando sua relação com o contexto capitalista globalizado e as consequências dele advindas, como a convivência com o risco, o neocolonialismo e o neoextrativismo. Em seguida, a pesquisa trabalha a conexão entre a atividade empresarial, a responsabilidade social, as relações entre stakeholders e o papel do discurso, no contexto da modernidade tardia e da sociedade da informação, com destaque para os principais conceitos da Análise Crítica do Discurso. O Estudo de Caso, com inspiração etnográfica, contou com múltiplas fontes de evidências: um processo de imersão da autora, aliado a pesquisa documental permitiu conhecer o contexto da relação entre a Vale e a cidade e a evolução da ideologia organizacional da empresa; uma série de nove relatórios sobre o processo de reparação forneceram dados sobre crenças e valores veiculados sobre a empresa; e entrevistas que mostraram o ponto de vista das pessoas atingidas sobre os acontecimentos no processo de reparação, bem como a natureza das relações sociais e a atividade material. Por meio da Análise Crítica do Discurso, foi desenvolvido um framework que permitiu acessar as práticas sociais. Essas, por sua vez, deram a conhecer as estruturas (fixas e abstratas) que dão origem aos eventos (flexíveis e concretos) no território. Revelaram-se estruturas e vínculos de poder entre atores no processo de reparação, bem como as estratégias discursivas, ideologias e seu papel na manutenção de relações hegemônicas. Os resultados demonstram que o bem-estar dos stakeholders, especialmente a população atingida, fica em segundo plano, em benefíciodo desempenho empresarial. Além de lidar com as perdas humanas e materiais e o adoecimento físico e psicológico causado pela tragédia (e perpetuado na reparação), as pessoas atingidas enfrentam os efeitos de um discurso cuidadosamente elaborado para velar os conflitos e projetar externamente uma realidade diferente, reforçando ideologias que mantêm as relações hegemônicas e persuadem públicos distantes do território e de seus habitantes – o que inclui instâncias decisórias em todos os poderes.
  • Micromobilidade Elétrica e Contributos para a Governança Urbana: Análise Comparativa e Prospetiva de Lisboa, Madrid e Cluj-Napoca
    Publication . Cristian, Adorean Emanuel; Mateo, Jordi Nofre; Moura, Filipe Manuel Mercier Vilaça e
    A rápida urbanização e o aumento da motorização nas cidades europeias têm conduzido a congestionamentos severos de tráfego rodoviário, ao acréscimo da poluição atmosférica e à redução dos níveis de qualidade de vida. A micromobilidade elétrica apresenta-se como uma solução potencial para a mitigação destes problemas, oferecendo uma alternativa sustentável para viagens de curta distância, designadamente até 10 km. Esta tese investiga o impacto da micromobilidade elétrica, nomeadamente bicicletas elétricas e trotinetes elétricas, pessoais e partilhadas, na mobilidade urbana em Lisboa, Madrid e Cluj-Napoca, com o principal objetivo de analisar a influência destes modos de transporte nas estruturas demográficas, comportamentais, de segurança, legislativas e de gestão que afetam a sua adoção e integração. Este estudo adota uma abordagem metodológica mista, que inclui inquéritos, entrevistas semiestruturadas, análises espaciais, modelação estatística e análise de discurso para examinar os perfis demográficos dos utilizadores, padrões de mobilidade, perceções de segurança e perspetivas dos stakeholders. A recolha de inquéritos nas três cidades resultou em 2.304 respostas válidas (804 em Lisboa, 723 em Madrid e 777 em Cluj-Napoca). Estes inquéritos exploraram uma variedade de vertentes da utilização das bicicletas elétricas e das trotinetes elétricas, bem como dos padrões de mobilidade e caraterísticas demográficas dos utilizadores de micromobilidade elétrica e não utilizadores. A análise de padrões de mobilidade incluiu análises descritivas e espaciais, tais como densidade de Kernel, hotspot analysis e regressão geográfica ponderada. A segurança percebida contra acidentes e assédios foi avaliada através de hotspots de acidentes, análises descritivas e análise de discurso. A análise de clusters foi conduzida para categorizar diferentes grupos de utilizadores de micromobilidade elétrica e não utilizadores, utilizando técnicas de clusterização hierárquica através do método de Ward.D2, análise de componentes principais e testes estatísticos para a validação dos clusters. Os resultados revelaram perfis demográficos e padrões de mobilidade distintos entre os utilizadores de bicicletas elétricas e trotinetes elétricas. Indivíduos mais jovens e com níveis de escolaridade mais elevados são mais propensos a adotar estes modos de transporte. As análises espaciais demonstraram que a disponibilidade e a qualidade das infraestruturas urbanas, como ciclovias e estacionamento, influenciam significativamente a adoção da micromobilidade elétrica. Infraestruturas bem desenvolvidas correlacionam-se com taxas de utilização mais elevadas e padrões de viagem mais homogeneamente distribuídos. As perceções de segurança emergem como uma barreira significativa à adoção mais ampla da micromobilidade elétrica. Os utilizadores percebem um maior risco de acidentes em áreas com infraestruturas deficitárias e alta densidade de tráfego. Além disso, o assédio, especialmente sobre utilizadoras, desincentiva o uso destes modos de transporte. A análise de stakeholders sublinhou a importância de uma governança eficaz e do envolvimento de diversos atores para a integração bem-sucedida da micromobilidade elétrica nos sistemas de mobilidade urbana. Foi destacada a necessidade de quadros regulatórios claros, parcerias público-privadas e envolvimento comunitário para enfrentar os desafios e aproveitar os benefícios destes modos de transporte. Por fim, a tese sugere recomendações para uma melhor governança da micromobilidade elétrica nas três cidades analisadas (Lisboa, Madrid e Cluj-Napoca), e direções para pesquisa futura, incluindo a exploração dos impactos de longo prazo da micromobilidade elétrica nos ambientes urbanos, benefícios ambientais, implicações económicas e questões de justiça social.
  • Do ensino superior para o mundo do trabalho: inserção profissional após a graduação na Universidade Nova de Lisboa
    Publication . Morais, César Augusto Lima; Chaves, Luís Miguel da Silva de Almeida
    Desde o final do século XX, diversos autores destacam a crescente incerteza e precariedade das transições entre o ensino superior e o mundo do trabalho de jovens recém-graduados. Esta evolução complexifica igualmente outras transições nos seus percursos de vida tradicionalmente associadas a esse processo de inserção profissional. Entre os anos de 2010 a 2020, período sobre o qual incide a presente análise, este quadro evolutivo geral foi perpassado por uma grave crise económica que, apesar de sentida na globalidade dos Estados-membros da União Europeia, assume particular gravidade nos países do Sul desta união. Em Portugal, registam-se aumentos dos níveis de desemprego, perda de qualidade nos empregos e recrudescem os fluxos emigratórios. Tendências particularmente visíveis junto dos jovens, mesmo entre diplomados do ensino superior, e que têm vindo a ser consideradas centrais para a dilatação relativa das temporalidades de vários marcadores simbólicos da sua passagem para a idade adulta, nomeadamente, a cessação da coresidência com a família, independência financeira, conjugalidade e parentalidade. Acresce, em 2020, o dealbar inesperado de uma crise pandémica suspende a retoma económica e laboral que se registava desde 2015, penalizando sobretudo os trabalhadores mais vulneráveis e os jovens que iniciam o seu processo de inserção profissional. São, porém, ainda escassas as análises sociológicas orientadas para a recente evolução da situação laboral de jovens recém-graduados do ensino superior português e, mais raras ainda, as que exploram a heterogeneidade deste grupo, particularmente vincada nos últimos anos pelo acentuar dos processos de feminização, abertura a novos públicos e internacionalização deste nível de ensino, mas também do aumento considerável da parcela de mestres e doutorados nas coortes mais recentes. Este projeto analisa dados quantitativos sobre a evolução da situação profissional, entre 2010 e 2020, de sucessivas coortes de licenciados, mestres e doutorados que se graduaram um ano antes na Universidade Nova de Lisboa. Esta análise longitudinal será enquadrada por dados compagináveis relativos a graduados do ensino superior em Portugal e na Zona Euro. Por outro lado, partindo do pressuposto basilar de que as aspirações e atitudes perante o trabalho constituem mediadores subjetivos centrais na relação que os sujeitos estabelecem com o trabalho e nos projetos profissionais e de vida que elaboram, este projeto pretende também deslindar, através de uma análise qualitativa, quer as matrizes aspiracionais e atitudinais, quer os projetos profissionais e os relativos à independência residencial e económica, conjugalidade e parentalidade, de um grupo de graduados da Universidade Nova de Lisboa entre os observados na análise quantitativa anterior. Até agora, estas temáticas têm sido pouco exploradas em Portugal, assim como nos países do sul da Europa, nos quais os impactos negativos da crise económica e pandémica mais se fizeram sentir.
  • Homossexualidade, lesbianismo e resistência nas ditaduras ibéricas do século XX: estudos de caso em comparação
    Publication . Louro, Raquel Afonso; Cascais, António Fernando da Cunha Tavares; Feria, Rafael Cáceres
    Este trabalho de investigação parte da necessidade de resgatar as memórias de homossexuais e lésbicas nas ditaduras ibéricas fascistas, colocando-as em comparação. A questão principal incide na compreensão do quotidiano de pessoas comuns cuja orientação sexual se considera um desvio em relação aos padrões normativos da época. Além de entender de que forma são oprimidas, e sabendo que onde existe repressão também existe resistência, pretende-se igualmente compreender quais as formas de resistência desenvolvidas por estas pessoas para conseguirem viver a sua sexualidade, observada nos dois contextos enquanto crime e doença. Ao mesmo tempo, e ao considerar o peso que os papéis de género têm ao longos das ditaduras (mas também antes e depois) é objetivo compreender as diferenças formas de opressão a homossexuais e lésbicas e, por causa disso, as suas diferentes formas de resistir. Nesta investigação aborda-se a visão que os dois Estados ditatoriais têm das sexualidades dissidentes, a forma como apresentam tratamentos diferentes consoante a classe social e o género de cada pessoa. Através de uma etnografia de arquivo e de uma etnografia retrospetiva, analisam-se os vários tipos de opressão praticados durante este período: o controlo social formal (portanto, a repressão estatal, legal e policial), e o controlo social informal (a opressão social e familiar, ligada à moralidade católica, e que, muitas vezes, leva à autorrepressão). Ao mesmo tempo, resgatam-se várias formas de resistência quotidiana, como a ocultação, a dissimulação ou a ignorância fingida (que contêm igualmente diversas ramificações), e que apresentam diferenças assinaláveis ao nível do género. A existência de diferenças na forma de reprimir as sexualidades dissidentes nos dois Estados permite mostrar que, apesar de serem ditaduras fascistas que surgem de forma cronologicamente próxima e com complexos ideológicos semelhantes, existem especificidades relativas a ambos os contextos (e mesmo dentro dos próprios Estados, com especificidades territoriais) que alteram a forma como estes observam (e oprimem) as sexualidades fora da norma. Nesse sentido, a análise aqui realizada permite mostrar que não é apenas por existir uma partilha ideológica que a forma de fazer é exatamente igual, e contribui, ao mesmo tempo, para reforçar a necessidade de continuar a resgatar a memória das sexualidades dissidentes (na Europa e no mundo, em ditaduras ou democracias).
  • Heroínas da ópera do primeiro romantismo: as vozes de um discurso de género no Bel Canto
    Publication . Canavilhas, Maria Gabriela da Silveira Ferreira; Castro, Paulo Ferreira de
    Este trabalho investiga a representação feminina na ópera italiana da primeira metade do século XIX através dos sistemas de significação emanados dos discursos intertextuais da dramaturgia musical, procurando identificar as operações de poder que se estabelecem entre os géneros. A dramaturgia musical do primo ottocento apresenta-se, em grande medida, como um microcosmo da nova ordem social que emerge da reconstrução político-social europeia após a Revolução Francesa e o Congresso de Viena. Neste processo transformador das sociabilidades, a condição feminina e o papel da mulher reconfiguraram-se, bem como as relações entre os géneros e os respetivos papéis sociais. Sendo a construção social determinante na formação dos cânones de género, é através da cultura - o conjunto de interligações entre o conhecimento e o comportamento - que estes se consolidam e se perpetuam. Sem surpresa, a ópera, género artístico agora destinado à nova classe burguesa, foi acompanhando e contribuindo para a normalização de tipologias de género moldadas por uma cultura patriarcal reforçada que, se por um lado colocava a mulher no centro das narrativas como figura aspiracional idealizada, por outro, mostrava-se inclemente com personagens femininas que se constituíssem como símbolos de divergência à hegemonia do poder masculino no quadro de uma estética que privilegiava o fatalismo como pathos dramático. Desde as heroínas inocentes e castas, às insanas por amor, passando pelas vítimas de amor-posse e de ciúme, e ainda, às transgressoras e suicidas, esta investigação debruça-se sobre a forma como o sistema operático refletiu a mulher oitocentista e sobre os mecanismos de afirmação de poder da heroína do bel canto por entre a estrutura de valores patriarcal.
  • Rompendo o armário político na internet e nas ruas: Os ativismos LGBTQIA+ à direita no Brasil (2013-2020)
    Publication . Cruz, Rodrigo Rodrigues da; Simões, João Alberto de Vasconcelos
    Esta tese busca compreender o processo de constituição pública dos ativismos LGBTQIA+ à direita no Brasil entre os anos de 2013 e 2020. Indo ao encontro das essencializações comuns ao debate público, que tendem a tomar estes ativistas como portadores de uma “falsa consciência” de si mesmos, optei por uma abordagem compreensiva preocupada em reconstituir os pontos de vista dos atores. Teoricamente orientado pela Sociologia da ação coletiva e dos movimentos sociais, em especial pela abordagem do Confronto Político, em articulação com uma Sociologia de tradição disposicionalista e com teorias e conceitos dos estudos de gênero e sexualidade, adotei uma perspectiva multinível com o objetivo de: identificar as variáveis do ambiente político e cultural que ofereceram incentivos a estas mobilizações (nível macro); examinar as dinâmicas relacionais que atravessam a ação coletiva (offline) e conectiva (online) dos atores e seus agrupamentos, com ênfase nas formas de organização, ação e produção de sentido (nível meso); e analisar as contribuições de ordem biográfica (na forma de disposições individuais, valores e crenças incorporadas ao longo de suas trajetórias) que são mobilizadas para dar forma e sentido a estes ativismos (nível micro). Para atingir estes objetivos, recorri a uma triangulação de dados empíricos produzidos a partir de uma pesquisa documental nos meios de comunicação social, imersão etnográfica online e entrevistas compreensivas com 18 ativistas (homens cis e trans auto identificados como homossexuais, bissexuais e assexuais) associados a diferentes grupos políticos à direita e residentes em diferentes regiões do Brasil. Os resultados sugerem que o contexto de oportunidades políticas e culturais aberto pela crise dos governos do Partido dos Trabalhadores, o ciclo de protestos de junho de 2013 e a campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2015/2016 provocou deslocamentos relevantes no campo do confronto político. Este cenário favoreceu o recrutamento de novas gerações de ativistas por parte de antigas e novas organizações liberais e conservadoras, criando um ambiente permeável à circulação de novas ideias e comportamentos que ofereceu estímulos à ruptura do armário político. Estes ativistas encontraram-se uns aos outros nos espaços de socialização política à direita na internet (fanpages, canais, grupos privados de discussão), formando agrupamentos específicos para pessoas LGBTQIA+ e dando forma a dois estilos de ativismo distintos, mas com algum grau de semelhança: um de cariz liberal e outro de feição conservadora. Do ponto de vista das trajetórias individuais, o engajamento político à direita permitiu que os atores pudessem: tentar compatibilizar as várias identidades (ex.: “gay”, “católico”, “negro”, “conservador”, “patriota”) e papeis sociais (ex.: “filho”, “marido”, “fiel” e “trabalhador”), acumulados ao longo dos seus percursos de vida; expressar a rejeição às esquerdas e aos movimentos e espaços de sociabilidade LGBTQIA+; criar uma autoimagem positiva e ressignificar e negociar suas identidades sexuais nos meios sociais considerados significativos para as suas existências, nomeadamente a família, a igreja e os espaços de ativismo.
  • Deputadas Portuguesas antes da «Democracia Paritária» (1975-1987)
    Publication . Duarte, Vanda Maria das Neves Gorjão; Lisboa, Manuel Gaspar da Silva
    A noção de democracia paritária surge inicialmente nos discursos dos feminismos da década de 1970. Fora do círculo restrito do movimento feminista, o seu eco foi na altura mínimo. É no final dos anos de 1980 que adquire alguma visibilidade pública. Isso sucedeu na sequência da Conferência «Democracia Paritária – quarenta anos de actividade do Conselho da Europa», realizado em 1989. A novidade que a noção consubstanciou resulta de postular que a paridade entre os géneros é uma condição incontornável para garantir a realização efectiva da democracia, tal como de equacionar a problemática dos níveis de democratização e de legitimidade do poder político à luz do equacionamento da desigualdade de género. Posteriores a essa Conferência, diversos encontros e promulgações internacionais favoreceram a integração do tema nas agendas políticas de diversos países ocidentais e deram azo a medidas institucionais coincidentes com os propósitos da paridade. Um âmbito central da democracia paritária foi, precisamente, a exigência de uma representação das mulheres no sistema político equivalente à dos homens. A promulgação de quotas de representação que garantissem pelo menos 30% de presença de mulheres nos partidos e nas várias arenas da política central e local, estendeu-se a diversos Estados. Portugal promulgou a Lei da Paridade em 2006. Depois de instaurada a democracia no país na sequência da Revolução de 1974, a entrada mais expressiva das mulheres no sistema político deu-se na arena parlamentar. Esta investigação pretende compreender quem foram e que protagonismo tiveram as deputadas no parlamento português entre a Assembleia Constituinte (1975-1976) e a IV Legislatura (1985-1987), num momento em que a noção de democracia paritária não tinha sido assumida como premissa no sistema político e a sub-representação das mulheres na Assembleia da República era muito expressiva. No essencial, pretende-se perceber se essas primeiras deputadas terão contribuído para promover a igualdade de género no parlamento e para que o fundamento da paridade viesse a ser reconhecido mais tarde. São dois os caminhos empreendidos no ensaio de possíveis respostas. Numa análise macroestrutural, extensiva e quantitativa, estabelece-se uma primeira caracterização socioprofissional, política e parlamentar das deputadas, tal como uma caracterização das diferentes modalidades de actuação concreta que elas tiveram no parlamento. Numa análise de cariz qualitativo, sustentada pela construção de narrativas de vida com base em entrevistas biográficas realizadas a algumas deputadas, procura-se compreender percursos e contributos individuais. As narrativas de vida permitem adicionar uma perspectiva de conhecimento compreensivo e intensivo à primeira caracterização, nomeadamente ao convocar uma dimensão subjectiva de representações, disposições e valores. Concomitantemente, procura-se perceber se são encontrados distintos perfis políticos e parlamentares no seio desta primeira geração de mulheres parlamentares. A possibilidade de desenhar uma tipologia de perfis de deputadas poderá concorrer para uma compreensão mais aprofundada de quem elas foram e de qual foi a sua intervenção política.
  • O papel das empresas privadas e das redes empresariais na defesa e policiamento de Angola (1960-1970)
    Publication . Magalhães, Teresa Furtado Peixoto; Curto, Diogo Sassetti Ramada
    O comportamento do setor privado colonial durante a guerra pela independência de Angola (1961-1974) permanece pouco estudado, em especial no que toca às suas diferentes trajetórias de atuação ao longo do tempo. Esta tese procura colmatar parte desta lacuna ao evidenciar o papel corporativo na defesa paramilitar das zonas onde determinadas empresas atuavam e analisando as iniciativas privadas de propaganda internacional a favor do colonialismo português. De forma a afastar conceções homogéneas quanto ao setor empresarial, procuramos colocar em evidência dissimetrias de atuação que estão por detrás das relações entre o Estado colonial e os grandes grupos económicos transimperiais através do estudo de caso de três empresas: a Companhia de Diamantes de Angola, a Companhia dos Caminhos de Ferro de Benguela e a Companhia Geral dos Algodões de Angola. Importa analisar o modo como o setor privado entrou nos cálculos estratégicos quanto à restruturação das forças militares e paramilitares no final da década de 1950, lançar luz sobre o racional por detrás das diferentes respostas do setor empresarial e analisar o aparecimento de uma organização privada de propaganda montada para defender a imagem do Estado e do setor privado colonial nos Estados Unidos da América e em alguns países europeus. Esta tese contribui para uma análise mais detalhada sobre a forma como a secular relação de dependência entre estes dois ambientes organizacionais se adaptou a um período particularmente violento da história colonial, marcado não só por desafios locais de contenção das forças subversivas, mas também por fortes críticas internacionais que visavam as condutas sociais, económicas e políticas tanto do Estado como do setor privado.
  • Postais de Lisboa - Práticas turísticas e as suas implicações na reconstrução de identidades territoriais
    Publication . Vaz, Alexandre Martins; Baptista, Luís António Vicente; Vidal, Fréderic
    Na segunda década do século XXI, Portugal atravessou uma crise financeira e orçamental com um amplo impacto económico e social. No entanto, houve um setor que, no mesmo período, assistiu a um ritmo de crescimento sem precedente: o Turismo. O número de visitantes da cidade de Lisboa duplica, multiplicando-se os negócios orientados para este sector. Em paralelo, assistiu-se no espaço público à emergência de discursos de contestação do turismo. Nesta tese analisamos estes discursos, nomeadamente o seu repertório conceptual e a sua mobilização nos confrontos quotidianos, na academia, nos órgãos de comunicação social, nas manifestações, nas coletividades, nos arraiais ou nas ruas. Seguindo uma abordagem multi-escalar e multimétodos atendem-se às transformações na cidade, com especial enfoque no centro histórico e mais particularmente na Ffreguesia de Santa Maria Maior. A partir de entrevistas em profundidade a diferentes atores, de um questionário aplicado a moradores na Área Metropolitana, e da análise dos perfis dos estabelecimentos comerciais do centro da cidade, de grafitis de protesto e de outros testemunhos, confrontam-se práticas e representações do turismo com o objetivo de descodificar eixos polarizadores tipicamente ocultos. Conclui-se que os conflitos são um elemento constitutivo das vivências urbanas e que, ao invés da sua eliminação ou repressão, estes assumem um caráter emancipatório que carece de aprofundamento. No entanto, as disputas estudadas surgem marcadas por contradições, onde os discursos orientados para a defesa do espaço público, igualmente transportam a reprodução de posições de privilégio e direitos adquiridos. Irónicamente, a denúncia da gentrificação e do volume do turismo acaba por alimentar discursos binários em que se opõem centros e periferias, nacionais e estrangeiros, tradicionais e inovadores acabando por contribuir para agravar os problemas de exclusão que identifica e se propõe contrariar.