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http://hdl.handle.net/10362/4089
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| Title: | Mulheres em idade fértil e pobreza |
| Authors: | Craveiro, Isabel |
| Advisor: | Ferrinho, Paulo Hespanha, Pedro |
| Issue Date: | 2010 |
| Abstract: | Esta tese aborda as práticas e as representações de mulheres em idade fértil, que vivem em
contextos sociais de pobreza. As práticas sobre o acesso e as formas de utilização dos cuidados de
saúde reprodutiva. As representações das mulheres relativamente à maternidade e/ou fecundidade,
verificando de que forma estas influenciam a utilização de cuidados de saúde reprodutiva (saúde
materna e planeamento familiar). E as representações dos profissionais de saúde e técnicos de
serviço social sobre os comportamentos de fecundidade e as formas como as mulheres (pobres e
não pobres) utilizam os cuidados de saúde reprodutiva.
Devido à natureza do objecto de estudo e à complexidade inerente, optou-se por utilizar uma
combinação de métodos qualitativos e quantitativos e respectivas técnicas de recolha e análise de
dados, num mesmo desenho de estudo, tendo em vista a triangulação metodológica, que ajudou à
compreensão mais profunda da realidade em estudo. Como tal dividiu-se a investigação em três
estudos: 1) o estudo exploratório; que apoiou nas decisões, nomeadamente na delimitação do
objecto de estudo, dos objectivos gerais e específicos, das hipóteses centrais de investigação e dos
aspectos metodológicos relacionados com o estudo de caso-controlo e o estudo qualitativo; 2) o
estudo de caso-controlo (quantitativo); 3) o estudo qualitativo.
Estudo de caso-controlo
O estudo de caso-controlo foi realizado com mulheres em idade fértil, em que os casos são
mulheres consideradas “muito pobres”, havendo dois controlos para cada caso: os controlos 1, que
são mulheres consideradas “pobres” e os controlos 2, que são mulheres consideradas “não
pobres”.
Este estudo foi planeado com uma amostra de 1513 mulheres em idade fértil, com 499 casos
seleccionados segundo um esquema de amostragem estratificada proporcional (de mulheres
consideradas muito pobres) seleccionados da base de dados de beneficiários de RSI, da SCML. E
1014 controlos (de mulheres não consideradas como muito pobres): os controlos 1 foram
seleccionados também segundo um esquema de amostragem estratificada proporcional dos
restantes beneficiários da SCML; os controlos 2 foram seleccionados de forma bi-etápica,
primeiro procedeu-se a uma amostragem aleatória simples de quatro Centros de Saúde e de
seguida optou-se por uma regra sistemática de selecção das utentes desses Centros de Saúde,
mediante a aplicação de um formulário de critérios de inclusão. Os dados foram recolhidos
através de um questionário semi-quantitativo aplicado por entrevista. Responderam ao
questionário um total de 1054 mulheres, sendo que o total de respondentes distribui-se pelos
grupos em estudo, isto é, 304 referentes aos casos (muito pobres), e 750 respeitantes aos controlos
[293 pertencentes ao grupo de controlos 1 (pobres) e 457 provenientes do grupo de controlos 2
(não pobres)].
Os dados foram analisados utilizando técnicas estatísticas bivariadas e multivariadas.
Concretamente, começou-se pela análise descritiva (frequências absolutas e relativas; medidas de
tendência central: moda, média, mediana, média aparada a 5%) das variáveis demográficas e das
variáveis de fecundidade (representações, tensões, práticas e controlo de fecundidade) em função
das variáveis de condição social (gradientes de pobreza segundo os grupos em estudo).
Seguiu-se a análise de comparação e associação - o teste de Qui-quadrado para testar a
homogeneidade e para testar a homogeneidade de variâncias aplicou-se o teste de Levene e a
normalidade da variável quantitativa, nos grupos em estudo, foi testada através do teste de
Kolmogorov Smirnov e o teste de Shapiro-Wilk. Sempre que as condições de aplicação da
ANOVA não se verificaram, aplicou-se a alternativa não paramétrica: o teste de Kruskal-Wallis.
O cálculo do odds ratio da variável “ter gravidez e filhos” foi efectuado de acordo com o
proposto por Mantel-Haenszel aplicado nas situações em que existem dois controlos por caso.
Foram ainda utilizados modelos de regressão logística (pelo método Forward: LR) para avaliar a
probabilidade de ser do grupo de casos (muito pobre), relativamente a ser do grupo de controlos 1
(pobre) e ser do grupo de controlos 2 (não pobre). E dois modelos de regressão logística
multinomial para estudar a relação entre uma variável dependente de resposta qualitativa não
binária [no presente estudo com três classes - os três grupos em estudo: casos (muito pobres),
controlos 1 (pobres) e controlos 2 (não pobres)] e um conjunto de variáveis explicativas
(predictor variables), que podem ser de vários tipos.
A análise efectuada confirma a existência de gradientes de pobreza e a sua associação a gradientes
de fertilidade, que se reflectem em termos de acesso à saúde e nos padrões de utilização de
cuidados de saúde reprodutiva. O facto de as mulheres terem tido filhos (variável “ter gravidez e
filhos”) aumenta a probabilidade (OR=1,17; p<0,001; IC = 1,08 – 1,26) de serem muito pobres,
comparativamente a serem pobres e não pobres. Isto é, a maternidade configura-se como um
factor explicativo da pertença social das mulheres, sobretudo quando interligado com outros
factores.
Concretamente, verifica-se através da análise dos modelos de regressão logística que existe uma
interligação entre a condição social das mulheres e um conjunto de características sóciodemográficas,
que se configuram como factores de risco de pobreza, como sejam o baixo
rendimento dos agregados, a dimensão dos agregados familiares, a baixa escolaridade e as
pertenças étnicas.
Quanto ao acesso económico, constata-se que as mulheres muito pobres apresentam
incapacidades financeiras para comportar custos com a compra de medicamentos muito superiores
às restantes, constituindo-se esta como uma característica forte para explicar a sua condição social
actual.
Em termos de utilização de cuidados de saúde reprodutiva percebe-se que as mulheres muito
pobres são caracterizadas por baixa frequência das consultas de revisão do parto, com todas as
eventuais implicações no seu estado de saúde.
Um aspecto pertinente prende-se com a sistemática aproximação das mulheres pobres às muito
pobres, distanciando-se em quase tudo das mulheres não pobres. Ou seja, existe um número
considerável da nossa população “média” com vulnerabilidades, que deveriam merecer uma
atenção prioritária em termos de políticas sociais (nomeadamente, na área da saúde, do trabalho e
do apoio social).
Assim, é de enfatizar a importância de haver uma adequação das políticas de saúde no sentido de
assegurar que as populações mais vulneráveis consigam utilizar de forma apropriada os cuidados
de saúde reprodutiva.
Estudo Qualitativo
Foi efectuado um estudo qualitativo, através de realização de entrevistas e grupos focais.
Concretamente, foram feitas oito entrevistas e dois grupos focais a mulheres provenientes de
diferentes contextos socioeconómicos (pobreza e não pobreza), num total de 18 indivíduos. Foram
conduzidos dois grupos focais a profissionais de saúde (enfermeiros e médicos), num total de 15
participantes. E realizados quatro grupos de discussão a técnicos de serviço social, num total de
36 participantes. Todas as entrevistas e grupos focais foram gravados, seguindo-se a sua
transcrição integral. Os dados foram analisados com base nos procedimentos de análise de
conteúdo habituais no âmbito de abordagens qualitativas. No que diz respeito aos grupos focais,
procedeu-se a uma análise categorial temática.
Através da análise das representações de fecundidade percebe-se que para as mulheres,
independentemente do grupo socioeconómico a que pertencem, o melhor e o pior dos filhos,
envolve três níveis: os sentimentos, o desempenho das funções parentais e as privações.
E a maioria das mulheres assume que foi através de amigos, dos media e/ou de vizinhos que
obteve as primeiras informações sobre os métodos contraceptivos. Revelando ainda a inexistência
de influência familiar, especialmente das mães, na transmissão desses conhecimentos e
informações sobre contracepção, em todos os grupos socioeconómicos. Aliás, a percepção
generalizada é de que o sexo foi um assunto tabu na educação destas mulheres. Muitas das
mulheres no estudo descrevem uma preparação inadequada para o sexo e contracepção na
primeira gravidez, acontecendo esta como resultado de impreparação e não de planeamento.
Encontram-se semelhanças entre as mulheres provenientes de diferentes gradientes sociais, mas
também se encontram diferenças, nomeadamente, acerca do papel do parceiro masculino no
planeamento familiar e no planeamento das gravidezes. Existe uma diferença entre mulheres
provenientes de grupos socioeconómicos distintos (muito pobres e pobres vs. não pobres)
relativamente ao papel do parceiro na contracepção: não utilização do preservativo porque
companheiros “não aceitam” vs. as mulheres que assumem que as decisões quanto à contracepção
são e foram sempre da sua responsabilidade.
Os resultados vêm mostrar a importância atribuída ao sexo do médico e a vergonha envolvida na
utilização dos cuidados de saúde materna, cujas consequências se revelaram impeditivas de
realização das consultas pós-parto. Vários estudos já apontaram o desconforto durante o encontro
biomédico nos cuidados pré-natais resultando de uma incapacidade da mulher para lidar com
certas características do profissional de saúde, que podem incluir idade, género e linguagem (cfr.
nomeadamente, Whiteford e Szelag, 2000).
Um outro aspecto em que há diferenças entre grupos socioeconómicos nos resultados do estudo
de caso-controlo, e que vem ser ainda mais aprofundado através do estudo qualitativo, está
relacionado com os apoios recebidos quando os filhos nascem e quando existe uma situação de
doença. As mais pobres encontram-se numa posição de vulnerabilidade acrescida, porque não
podem colmatar a falta de apoios, por exemplo com amas para tomar conta dos filhos, como é
admitido, por exemplo, por uma mulher de etnia cigana. Mas emerge uma semelhança entre as
mulheres dos diferentes grupos socioeconómicos, quando reivindicam a necessidade de existir
mais apoio, nomeadamente uma rede de creches.
Os profissionais (saúde e social) demonstram nas suas representações as influências do modelo
biomédico de saúde. Quanto às mulheres, consoante o seu contexto cultural, elas tendem a
integrar num “modelo próprio” a sua relação com os cuidados de saúde, especificamente com os
cuidados pré-natais. Modelo esse que não exclui o uso dos serviços biomédicos durante a
gravidez, o que acontece é que as mulheres conservam as suas crenças e algumas práticas
tradicionais em face de novas. Deixando em aberto a possibilidade de negociação e transmissão
de conhecimentos por parte dos profissionais de saúde, processo facilitado com existência de
diálogo e abertura dos profissionais de saúde para as especificidades culturais (cfr. outros estudos,
nomeadamente, Atkinson e Farias, 1995; Whiteford e Szelag, 2000).
Os profissionais atribuem ao “pobre” uma característica-tipo: o imediatismo. Este condiciona a
actuação dos indivíduos “pobres” nas práticas de planeamento familiar e nas formas de utilização
de cuidados de saúde reprodutiva. Por exemplo, para os profissionais de saúde e técnicos de
serviço social a utilização correcta da contracepção dependerá do nível educacional da mulher.
Mas não se comprova tal facto nos estudos, havendo mesmo indício de uma certa transversalidade
nas “falhas” de utilização, por exemplo da pílula. Através do estudo de caso-controlo comprovase
que a pílula era o contraceptivo mais usado no momento em que as mulheres engravidaram do
último filho, sendo que aparentemente algo terá falhado (dosagem, esquecimento, toma
simultânea de antibiótico), não existindo diferenças entre os grupos socioeconómicos.
A análise reflecte a existência de representações nem sempre coincidentes entre mulheres e
profissionais de saúde, no que diz respeito à maternidade, à gravidez e à fecundidade, mas
também às necessidades e formas de utilização dos cuidados de saúde reprodutiva (saúde materna
e planeamento familiar).
Chama-se a atenção para a importância dos decisores terem estes factos em atenção de forma a
adequar as políticas de saúde às expectativas e percepções de necessidade por parte das
populações vulneráveis, procurando atingir o objectivo de utilização adequada de cuidados de
saúde reprodutiva e, em última análise, promover a equidade em saúde.
Conclusões Gerais
Esta investigação insere-se numa lógica de perceber as características associadas no continuum de
pobreza, procurando-se os factores que explicam a posição relativa dos grupos nesse mesmo
continuum.
Em termos de saúde, contata-se existir uma associação entre a não realização de consultas de
revisão do parto e as chances superiores de pertencer a um grupo socioeconómico mais pobre.
Haverá aqui lugar a um cuidado acrescido em termos de organização de cuidados de saúde para
que estas mulheres, com vulnerabilidades de vária ordem, sejam devidamente acompanhadas,
orientadas, apoiadas para a realização deste tipo de consultas, envolvendo uma sensibilização para
“gostar de si própria”, de valorização individual, mesmo depois do nascimento dos filhos.
As redes de sociabilidade são distintas consoante a posição que a mulher ocupa em termos de
gradiente social, sendo que a posição é mais vulnerável para as mulheres muito pobres e pobres,
quer em situação de doença, quer em situação de apoio para os filhos e ainda em termos de
privação material existe um efeito em termos de diluição das sociabilidades para grupos já tão
fragilizados a outros níveis.
Ao descrever, analisar e caracterizar os gradientes de pobreza e privação múltipla entre os grupos
de mulheres em estudo posso concluir que existem aspectos diferenciadores das mulheres pobres
relativamente às mulheres não pobres.Mas elas manifestam sobretudo características que as
aproximam das mulheres muito pobres. Ou seja, este grupo de pessoas está particularmente
envolta numa multiplicidade de riscos sociais, uma vez que são mulheres que têm filhos,
trabalham, têm redes de sociabilidade enfraquecidas e não podem contar com a ajuda do Estado
em termos de medidas de apoio social, não sendo elegíveis, por exemplo, para o RSI. Urge rever
as condições de atribuição de medidas, não necessariamente com a configuração actual, mas que
tenham em atenção este conjunto populacional.
A actividade sexual começa muito cedo nas vidas das jovens, independentemente da proveniência
socioeconómica, pelo que esse é um aspecto que, penso, deverá continuar a ser considerado em
termos de saúde sexual e reprodutiva por parte das diferentes entidades no que se refere à
educação e promoção para a saúde.
As questões relacionadas com a incapacidade para comportar custos de saúde - deixar de comprar
medicamentos, sobretudo, para as próprias mulheres, não poder pagar consultas em médicos
especialistas e dentistas - revelam-se sérias, na medida em que fazem emergir as diferenças em
termos de grupos socioeconómicos, constituindo-se como um factor associado com as iniquidades
em saúde ainda existentes em Portugal. Como é sabido pelos estudos realizados, estas são também
causas de pobreza. Assim, esta é uma das áreas a merecer actuação prioritária no sentido de
contribuir para que caminhemos para uma sociedade com mais equidade.
A existência de diferenças na acessibilidade e no acesso geográfico e económico, marcada pelas
diferenças em termos de gradientes sociais, deixa em aberto a necessidade de actuar no sentido de
que o sistema de saúde tenha políticas de promoção da equidade, nomeadamente a equidade de
acesso económico, na investigação desenvolvida sobre “sistemas de saúde”.
Parece que fica evidente a necessidade de monitorizar quais as interacções entre as políticas, de
saúde e sociais, e a variabilidade nas desigualdades sociais ao longo do tempo, ou seja, a
importância de monitorizar os efeitos das políticas nos grupos vulneráveis. Só avaliando
poderemos saber se as medidas devem continuar com conteúdo e formas de implementação
actuais ou se, pelo contrário, deverão acontecer mudanças nas medidas de apoio para melhorar as
condições sociais e de saúde das populações. |
| URI: | http://hdl.handle.net/10362/4089 |
| Appears in Collections: | IHMT: SPIB - Teses de Doutoramento
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