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http://hdl.handle.net/10362/3986
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| Title: | Desenvolvimento da saúde ocupacional em Portugal e a prática profissional dos médicos do trabalho |
| Authors: | Santos, Carlos José Pereira da Silva |
| Issue Date: | 2003 |
| Publisher: | Escola Nacional de Saúde Pública. Universidade Nova de Lisboa |
| Abstract: | A importância e a magnitude da saúde da população trabalhadora advém, em primeiro
lugar, da justa consideração de que se trata do elemento mais dinâmico e numeroso da
sociedade, do factor essencial da produção de bens e serviços e do garante da
produtividade económica (Lefranc, 1988). O desenvolvimento sustentado das sociedades
modernas conta com os trabalhadores como o meio de trabalho vivo mais valioso, pelo
que a valorização da sua saúde está com ele directamente correlacionado (Duclos,1984;
Dias, 1993).
O conhecimento das relações trabalho e saúde foi e continuará a ser condição necessária,
mas não suficiente, para a organização de intervenções promotoras da saúde e do bemestar
no local de trabalho e de medidas profilácticas das doenças e lesões relacionadas
com o trabalho e com as condições em que este é efectuado (OMS, 1981). É preciso que a
sociedade e as suas estruturas políticas e económicas assumam a Saúde Ocupacional (SO)
como objectivo prioritário e criem as condições legais, técnico-profissionais e materiais
para a levar à prática (Portugal, 1991a e 2001).
O actual estádio da organização e da prestação de cuidados de Saúde Ocupacional em
Portugal é fruto de um processo complexo onde intervêm factores de natureza política,
social, económica e técnico-científica. Estes, interactuando entre si, criaram as condições
objectivas e subjectivas para o lançamento, na década de sessenta, de um modelo legal de
serviços de Medicina do Trabalho o qual influenciou o desenvolvimento da saúde dos
trabalhadores e a prática profissional dos médicos do trabalho (Faria et al., 1985 ).
A Medicina do Trabalho como especialidade médica apresenta a característica ímpar de,
ao contrário de outras especialidades, ter sido precedida pela lei, regulamento ou norma
(Larche-Mochel, 1996). A sua prática, também muitas vezes entendida como de Saúde
Ocupacional, integra-se desde o início na lógica do sistema legal criado em Portugal na
década de sessenta que privilegia os cuidados médicos (Faria et al., 1985).
Na evolução interactiva da saúde no mundo do trabalho, as condições objectivas de
natureza estrutural, próprias do crescimento económico de cada país ou região, assumem
um papel essencial. No entanto, como a outros níveis sociais, os factores subjectivos
ligados aos conhecimentos, experiências e organização dos parceiros sociais e do poder político influenciam a estrutura formal da organização da Saúde Ocupacional (Duclos,
1984; Dias, 1993).
O que ressalta da realidade portuguesa é que o inadequado e incongruente modelo político
organizacional de prestação de cuidados de medicina do trabalho dos anos sessenta (Faria
et al., 1985), foi substituído pela nova legislação de 1994 e 1995, (Decreto Lei 26/94 e Lei
7/95) que dá suporte a uma nova estrutura formal de serviços de Segurança, Higiene e
Saúde no Trabalho (SHST) que está longe de corresponder à realidade da evolução das
forças produtivas, da sua organização e das necessidades de saúde e bem-estar dos
trabalhadores (Santos, 1998; Graça, 1999).
A reformulação da política de Saúde Ocupacional, com a correspondente reorganização
de serviços de saúde dirigidos à população trabalhadora, tem sido defendida por alguns
autores e entidades desde o início da década de oitenta (Faria et al., 1985; BIT, 1985;
Santos; Faria, 1988; Graça, 1999). Recentemente tal necessidade tornou-se uma evidência
constatada por todos os parceiros sociais e pelo poder político, o que levou ao
desencadear do processo de mudança em curso, que conta como primeiro facto, a
aprovação do “Acordo de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho”, pelo Conselho
Permanente de Consertação Social, em Julho de 1991, renovado pelo “Acordo sobre
Condições de Trabalho, Higiene e Segurança no Trabalho e Combate à Sinistralidade” do
Conselho Económico e Social de Fevereiro de 2001 (Portugal, 1991a e 2001).
De tempos a tempos, a falta de médicos do trabalho em termos absolutos é referenciada na
comunicação social por responsáveis políticos ou profissionais de saúde ocupacional sem,
no entanto, ser conhecida qualquer análise suficientemente rigorosa da prática profissional
dos actuais médicos do trabalho diplomados ou legalmente habilitados.
Os médicos do trabalho não são os únicos profissionais de saúde ocupacional, e o seu
contributo, apesar de importante, não é determinante no desenvolvimento histórico da
organização dos cuidados de saúde à população trabalhadora. Reconhece-se que os
parceiros sociais e o poder político são os intervenientes principais da evolução das
políticas de saúde ocupacional (Graça, 1993a; Dias, 1993).
No entanto, os médicos do trabalho são necessários e mesmo fundamentais para pôr em
prática as políticas (implícitas e explícitas) de saúde ocupacional. O papel dos médicos do
trabalho é tão primordial que, não raras vezes, estes assumem um tal protagonismo que é
susceptível de ser considerado como uma prática profissional mais dirigida aos seus próprios interesses, do que virada para as necessidades de saúde dos trabalhadores
(Walters, 1984).
O papel dos médicos e a prática de medicina do trabalho são elementos relevantes no
processo de desenvolvimento histórico da saúde dos trabalhadores, de tal modo que a
adopção de um determinado modelo de serviços de SHST sendo, num dado momento, a
resultante da interacção dos diversos factores em presença, torna-se por sua vez um
elemento condicionante do pensamento e da prática profissional dos diversos técnicos de
saúde ocupacional, entre os quais figuram os médicos do trabalho (BIT, 1985; WHO,
1986 e 1995; Directiva CEE n.º 391/1989; Rantanen, 1990).
Um primeiro inquérito aos diplomados com o curso de medicina do trabalho (cerca de
500) realizado pela Cadeira de Saúde Ocupacional da ENSP, em 1982, mostrou que cerca
de um terço (34,6%) não exercia qualquer actividade profissional relacionada com a saúde
ocupacional e os que a praticavam faziam-no essencialmente como actividade secundária
(74,4%), em regime de pluriemprego, de tempo parcial (horário semanal igual ou inferior
a 20 horas em 73,4% dos casos e inferior a 10 horas em 24,1%) e em empresas industriais
de grande dimensão (66,9%), em unidades de 500 ou mais trabalhadores (Faria et al.,
1985).
Em 1993, altura em que se inicia o presente estudo, é efectuado um novo inquérito aos
antigos alunos que representam o núcleo mais numeroso de médicos com actividade
profissional em Saúde Ocupacional no início da década de noventa. A estes junta-se um
número, relativamente pequeno, de médicos de empresa habilitados ao abrigo de
disposições transitórias e excepcionais contempladas na legislação de organização de
serviços médicos do trabalho de 1962 e 1967 (Portugal, 1991b).
A partir de 1991 têm início os Cursos de Medicina do Trabalho das Universidades de
Coimbra e do Porto, com a admissão anual e bianual de candidatos, respectivamente. Os
diplomados destas escolas representam um número acrescido de profissionais que iniciam
a sua actividade neste período de transição na organização dos cuidados de Segurança,
Higiene e Saúde no Trabalho (Decreto Lei nº 441/91; Decreto Lei n.º 26/94; Lei n.º 7/95).
A Estratégia Global da Saúde Ocupacional para Todos aprovada pela Assembleia
Mundial da Saúde em 1995 constitui a estrutura de enquadramento da nova política de
saúde ocupacional que inclui entre as suas dez prioridades o desenvolvimento de serviços
orientados para a população trabalhadora (WHO, 1995). Estes serviços devem funcionar bem, de forma competente e compreensiva, centrados na prevenção multidisciplinar e
incluir a vigilância do ambiente de trabalho e da saúde dos trabalhadores e a promoção da
saúde, conforme a Declaração de Saúde Ocupacional Para Todos aprovada no segundo
encontro de Centros Cooperativos para a SO da OMS, realizado em Pequim, em 1994.
Este trabalho tem como finalidade conhecer as eventuais inter-relações entre o novo
modelo legal de organização dos cuidados de Segurança, Higiene e Saúde no Trabalho
(SHST), instituído em Portugal nos anos de 1994/1995, e o pensamento e a prática
profissional dos médicos do trabalho diplomados pela Escola Nacional de Saúde Pública
da Universidade Nova de Lisboa (ENSP/UNL). De um modo mais específico pretende-se
descrever em que medida o novo enquadramento jurídico da MT/SHST/SO,
correspondente genericamente à fase da Nova Saúde Ocupacional, foi acompanhado de
alterações: (1) da percepção do grau de satisfação dos médicos do trabalho quanto ao seu
papel e estatuto profissionais; (2) do nível de satisfação relativo à formação especializada
formal (Curso de Medicina do Trabalho da ENSP/UNL) versus as necessidades da prática
profissional; (3) da efectividade do desempenho profissional e (4) da adequação do novo
modelo de organização de serviços de MT/SHST/SO ao contexto do desenvolvimento
sócio-económico e científico nacional e ao sentir dos médicos do trabalho.
Quatro grandes temáticas vão ser abordadas: (1) politicas, organização e desenvolvimento
da saúde ocupacional nacional e de empresa; (2) papel e funções dos médicos do
trabalho; (3) ensino e necessidades formativas em saúde ocupacional; (4) prática
profissional dos médicos do trabalho de empresa. Os resultados obtidos serão
contextualizados através do enquadramento num modelo teórico explicativo da evolução
histórica dos cuidados de saúde à população trabalhadora em meio laboral e que é alvo de
revisão no presente trabalho.
Este estudo enquadra-se nos objectivos e temas de investigação prioritários da Saúde Para
Todos (SPT) da região europeia da OMS, nomeadamente o estudo do funcionamento dos
actuais sistemas de assistência sanitária, tendo em vista a adequada cobertura das
necessidades de saúde de todos os trabalhadores (OMS, 1989) e orienta-se para a
efectividade dos recursos podendo servir para assistir o processo de decisão política (Ong,
1993), e tentar dar um contributo para o apuramento da influência da legislação existente,
na prestação de cuidados de Segurança, Higiene e Saúde do Trabalho (SHST) nas
empresas (Portugal, 2001). |
| URI: | http://hdl.handle.net/10362/3986 |
| Appears in Collections: | ENSP: SO - Teses de Doutoramento
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